quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Eu sou um otário

Há algumas semanas o Titã Tony Belloto publicou um excelente artigo no jornal, com o título “Procura-se um otário”, dizendo que há, no Brasil, malandros demais e otários de menos.  Ressaltou a valorização nacional do malandro, disse que nutrimos uma simpatia pela figura. Ele iniciou uma campanha cívica “procura-se um otário” pois só os otários poderão restituir nossa dignidade.

Estamos num país controlado pelos espertos malandros. Estamos rodeados pela corrupção, hipocrisia e dissimulação, que se  tornaram-se comuns demais. Para o colunista, “Policiais agem como bandidos, bandidos agem como bandidos, políticos agem como bandidos e cidadãos comuns também agem como bandidos”. Faz parte do cotidiano do brasileiro as malandragens tais como dar um jeitinho em tudo que for possível, arranjar um trocado para uma cervejinha para corromper; puxar para baixo valores de transações imobiliárias; usar caixa dois; avançar sinal; furar fila; jogar lixo na rua; xingar os motoristas; não desligar o celular em sala de aula; fazer fofoca e intriga; atravessar fora da faixa de pedestres; enganar no peso; usar material inferior na construção civil etc. Há também muito malandro que apenas fica calado, na sua, sem se meter  em encrenca, que é coisa de otário.

A malandragem e esperteza que muitos de nós prezamos produziram-nos um país desigual, muito atrasado, extremamente injusto e violento, com índices iguais ou maiores dos que os países com conflitos. Nosso país de malandros aparece em 7º lugar no PIB, mas em 54º lugar no PIB per capita. No Índice de desenvolvimento Humano – IDH, amargamos um 85º lugar. A malandragem crônica produz cidades injustas, inseguras, intransitáveis. Temos 13 milhões de analfabetos. Temos, em média, a cada ano, 56 mil mortos pela violência, número maior que todos os conflitos mundiais juntos. Nossa frota de veículos gira em torno de 64 milhões, ou seja, há mais rodas que habitantes.  A malandragem gera políticos malandros, corruptos e malandros corruptores. Burlar a lei é comum, e se preciso, muda-se malandramente a lei. É comum ter políticos respondendo a inúmeros processos por improbidade administrativa e indícios de corrupção, assim como é comum ter cidadãos processados por terem se manifestado contrário aos desmandos, aos indícios de irregularidades, à negligência de quem nos governa.  Dar-se bem com o governo é se aliar-se aos malandros; criticar o governo é para os otários.

Na última Copa do Mundo os “malandros” da Seleção Brasileira, impulsionados pelas pérolas da língua “vamo que vamo”, “é nóis”, “prá cima deles”, e embalado pelo hino à capela, culminou com uma humilhante goleada pelos “otários” alemães, que, além de um belo e eficiente futebol coletivo, também nos goleiam, na mesma proporção, nos indicadores econômicos e sociais e na qualidade das suas cidades.

Chega de malandragem! Chega de esperteza! Nosso país precisa de otários. Sejamos, pelo menos alguns de nós, otários! Mesmo que para ser otário temos de ter muita coragem para enfrentar os malandros espalhados por todos os lados, na nossa cidade, no nosso estado, no nosso País. ‘Seja otário, seja herói’ como disse Belloto. Eu tenho a honra de ser um e gostaria de estar acompanhado cada vez mais por mais otários. É deste lado que eu fico.

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