Por amor às cidades
Temas de discussão: Arquitetura e Urbanismo. Planejamento Urbano. Patrimônio Histórico. Futuro das cidades. Pequenas e médias cidades. Architecture and Urban Planning. Heritage. The future of the cities.
21 março 2026
TRISTECIDADE
I Fórum Cidade em Perspectiva
O I Fórum Cidade em Perspectiva foi realizado no dia 14/3, no Centro Evangélico das Missões, em Viçosa. Importante para os pastores de várias igrejas evangélicas. Tive a honra de participar, juntamente com a Secretária Municipal de Assistência Social de Viçosa, Sra. Marise Alves. Falei dos desafios do planejamento e gestão urbanos em Viçosa.
Excelente iniciativa. Que hajam mais fóruns.
Fotos Ítalo Stephan, março de 2026
10 março 2026
O AGENTE SECRETO
O Agente secreto é um filme sobre a humanidade, com todos os seus defeitos e virtudes. Por isso é rico, complexo; esbanja a riquíssima cultura nordestina; expõe as fraquezas, descuidos, preconceitos, prazeres e dores; caricaturiza personagens (como Fellini o fazia em seus filmes); escancara o bem e o mal; expõe o crime e o amor, a verdade e a lenda, o carnaval e a matança; a honestidade e a longeva corrupção; a beleza e a feiura, a diferença da tecnologia entre os anos atuais e os anos 1970 (orelhão, fichas telefônicas, telegrama, filmes em rolo, cinema de rua, carroças que chamávamos de automóveis). Ah, traz a lenda recifense da perna cabeluda, para culpar o que os policiais faziam nas zonas de meretrício.
Um filme necessário sobre a vida; local, pernambucano, brasileiro, mundial.
Assistam!
Foto: https://veja.abril.com.br/cultura/como-assistir-o-agente-secreto-online-filme-indicado-ao-oscar-chega-ao-streaming/
08 março 2026
MARIA MARIA E A CIDADE
Maria Maria mora em uma cidade nem muito pequena, nem muito grande. Mesmo vivendo em um bairro de classe média, a vida das mulheres ali é complicada. Maria Maria tem sorte de estar bem localizada; sabe que, nos bairros mais afastados, não há ônibus suficientes nem horários noturnos, o que impede muita gente de estudar à noite. Quem mora lá tem uma vida mais difícil do que a de Maria Maria : as mulheres precisam de mais tempo em deslocamentos e não encontram perto o que precisam, como creche, escola, atendimento de saúde, trabalho ou lazer.
Parece-lhe que a cidade foi feita só para os homens. Além do medo, as mulheres têm dificuldades para andar nas ruas com carrinho de bebê ou carrinho de compras. Não há locais para trocar fraldas ou amamentar quando estão longe de casa. Maria Maria não tem coragem de fazer o que o marido faz - sair muito cedo, ainda escuro, para ir à academia ou andar sozinho por ruas mal iluminadas.
No trajeto do trabalho para casa, a pé, mesmo morando numa área mais central, Maria Maria anda sobressaltada, pois as ruas por onde passa têm muros altos de ambos os lados, sem janelas, apenas portões fechados. Não se vê gente, não há grades nem jardins; a iluminação é fraca e há terrenos baldios cheios de mato.
Como outras mulheres, Maria Maria se desloca por necessidade mais do que os homens. Enquanto eles fazem basicamente o trajeto casa-trabalho-casa, usando o único carro da família, ela percorre esse caminho a pé, ainda acrescenta levar e buscar a filha na escola, fazer compras e ir à casa dos pais e dos sogros para ver se estão bem. Além disso, o trabalho doméstico é desvalorizado. Na volta do trabalho traz compras, busca a filha e chega em casa para uma nova jornada: o trabalho doméstico - preparar o jantar, lavar roupas, cuidar da filha, ligar para a mãe, arrumar a casa. Do marido, não reclama: ele lava as louças, arruma a mesa do café, lava suas cuecas e deixa a filha na escola.
Depois de todos os afazeres, Maria Maria dorme tarde, cansada, e acorda cedo para mais uma jornada heroica.
07 março 2026
PARQUE TECNOLÓGICO DE VIÇOSA
NOVO MESTRE
01 março 2026
VIÇOSA E OS ODS
Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa, em 26/02/2026
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) formam um conjunto de 17 metas globais definidas pela ONU em 2015, integrando a Agenda 2030, com o objetivo de acabar com a pobreza, proteger o planeta e garantir paz e prosperidade. Eles abrangem aspectos sociais, econômicos e ambientais, visando ao desenvolvimento sustentável em nível mundial. Trato aqui do ODS11, mais específico da minha área de atuação. O ODS11 busca “tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”. Neste texto, destaco quatro pontos desse ODS e os relaciono com os dados que o IBGE apresenta sobre Viçosa, alguns deles comparados com Ubá (cidade-polo vizinha), Juiz de Fora (polo da Região Intermediária, Belo Horizonte e Minas Gerais.
O primeiro ponto é: “até 2030, garantir o acesso de todos à habitação segura, adequada e a preço acessível, aos serviços básicos e à urbanização de favelas”. O segundo item do ODS 11 é “aumentar substancialmente o número de cidades e assentamentos humanos que adotam e implementam políticas e planos integrados para a inclusão, a eficiência dos recursos, a mitigação e a adaptação às mudanças climáticas e a resiliência a desastres”. Viçosa apresenta um indicador de 30% da população exposta ao risco (22,7% em Juiz de Fora; 6,9% em Ubá e 16,8% em Belo Horizonte), valor significativamente maior que o das referências. Essa exposição ao risco refere-se ao contingente de pessoas que residem em locais com alta probabilidade de ocorrência de desastres naturais, como deslizamentos, inundações e enxurradas.
O terceiro ponto é: “até 2030, aumentar a urbanização inclusiva e sustentável e as capacidades para o planejamento e a gestão de assentamentos humanos participativos, integrados e sustentáveis”. Trago o indicador “Urbanização de vias públicas”, no qual são avaliados quesitos como pavimentação, drenagem e iluminação pública; mobilidade e acessibilidade (presença de calçadas, faixas de pedestres e rampas para cadeirantes); presença de lixo acumulado nos logradouros e capacidade da via. Viçosa apresenta 26%, enquanto as outras referências são significativamente maiores (53% em Juiz de Fora, 53% em Ubá e 44,2% em Belo Horizonte).
O quarto ponto é: “até 2030, reduzir o impacto ambiental negativo per capita das cidades, inclusive prestando especial atenção à qualidade do ar e à gestão de resíduos municipais”. O IBGE apresenta os indicadores de esgotamento sanitário por rede geral, rede pluvial ou fossa ligada à rede (dados de 2022), com os seguintes percentuais: 88,71%, 94,04%, 85,88% e 96,97% (Viçosa, Juiz de Fora, Ubá e Belo Horizonte, respectivamente). Viçosa supera apenas o indicador de Ubá. O indicador de Minas Gerais é de 63,2%, bastante preocupante, pois há grande desigualdade socioeconômica no estado.
Chama atenção o fato de Viçosa apresentar renda média de 2,9 salários-mínimos (18ª posição em MG), maior que a de Juiz de Fora (2,3; 339ª posição) e de Ubá (1,7; 426ª posição), embora inferior à de Belo Horizonte (3,3 S.M., na 10ª posição), enquanto em Minas Gerais é de 1,4 salário-mínimo. Esse indicador, no caso de Viçosa, é discutível, pois há o fator UFV, que sabidamente paga salários mais elevados do que a média da cidade, o que indica uma realidade de desigualdade econômica.
Os dados, mesmo que aparentemente frios, estão postos, ao menos para provocar reflexões e sinalizar o que deve ser feito no campo das políticas urbanas. Há muito a ser feito por Viçosa: melhores condições de urbanização e de saneamento básico; diminuição dos riscos para a população e melhor distribuição de renda. 2030 está logo ali, sem perspectivas de que haja grandes melhoras. Uma sociedade desigual, em que grande parte da população é carente de serviços adequados, não faz bem a ninguém.
26 fevereiro 2026
QUE VENHAM OS EXPERTS
Foto: https://agenciamg.com.br/2026/02/24/chuvas-juiz-de-fora-mortes-alerta/
21 fevereiro 2026
PRECARIEDADE
Há partes das nossas cidades em que prevalece a precariedade de quase tudo em infraestrutura urbana: via adequadamente pavimentada, calçada, drenagem pluvial, contenção de barrancos, iluminação pública.
As construções são feitas da forma que a autoconstrução consegue, sem alinhamento ou afastamento, sem regras. As periferias das cidades crescem assim, desordenadas porque não planejadas, orientadas ou fiscalizadas.
A imagem poderia ser de qualquer bairro de Viçosa, Ubá, Manhuaçu, Juiz de Fora, belo Horizonte, Rio de Janeiro....
16 fevereiro 2026
VIVA O ENSINO SUPERIOR PÚBLICO!
Ao contrário do que propagam, as universidades federais são espaços de pluralidade de ideias, de convivência democrática e de promoção do conhecimento, essenciais para o desenvolvimento científico, social e econômico do Brasil. Tem de tudo nelas (inclusive no departamento que atuo): esquerda, direita, centro, humanistas, puramente técnicos, filósofos, "tô nem aí", em cima do muro, não manifestantes.
Os ataques parecem vir depois que saiu o resultado das avaliações das escolas particulares de medicina, das quais 1/3 foram reprovadas, com notas 1 e 2. Muitas delas são apenas receptoras de dinheiro, "pagou passou", reprovou, despede o professor, pagam mal aos professores.
As federais e estaduais foram avaliadas com notas 4 e 5 (UFV, UFJF, UFOP,USP, Unicamp, UFMG...). As de notas 1 e 2 são muitas, investiguem para ver quais são, não cabe aqui citar.
Nossos objetivos são ensinar, pesquisar, fazer extensão. Não formamos vagabundos, maconheiros ou comunistas. Não nos interessam balbúrdias. Nós, das universidades públicas formamos cientistas, engenheiros, presidentes, médicos, prefeitos, ministros, empreendedores, professores, filósofos, psicólogos...
Para mim, há 33 anos e mais de 1300 formados, sem jamais ter sido acusado de nada, a Universidade é o meu motivo de vida, assim como meus colegas que têm posições ideológicas bem diferentes. Somos parte da Universidade, como é o próprio significado da palavra.
09 fevereiro 2026
FORMATURA UFV 2026
05 fevereiro 2026
COMPUR EM VIÇOSA
O Conselho Municipal de Planejamento e Desenvolvimento Urbano e Rural (Compur) de Viçosa, recriado pelo Plano Diretor de 2023, já tem seu regimento interno e começou a se reunir.
01 fevereiro 2026
VIÇOSA SÃO MUITAS
VIÇOSA SÃO MUITAS
Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa, MG em 29 jan. 2026
Há, como em quase todas as cidades brasileiras, mais de uma cidade em cada cidade. Parece contraditório, mas não é. Toda cidade tem ao menos uma parte bem organizada, com infraestrutura adequada, praças, comércio diversificado, escritórios, consultórios, escolas e cinemas. Essa parte apresenta crescimento mais restrito; a única forma de crescer é por meio da verticalização e da consequente valorização do custo do solo, muitas vezes às custas do desaparecimento do patrimônio arquitetônico. Pode ser o centro histórico ou um bairro planejado mais novo. Em outras partes da cidade, quanto mais afastadas do centro, maior é a carência de infraestrutura; constrói-se da maneira que se consegue e vive-se na dependência de empregos e da oferta de serviços longe de casa.
Os padrões de expansão e ocupação urbana brasileiros, diria até latino-americanos, ocorrem sob várias formas de injustiça social. A mais visível é a segregação socioespacial, que toma duas direções diferentes. A primeira é a denominada autossegregação, na qual quem tem condições econômicas escolhe onde morar: em grandes apartamentos, condomínios fechados ou chacreamentos irregulares, estes dois últimos tipos invariavelmente mais afastados do centro.
O segundo tipo é a segregação compulsória, forma na qual não há muita escolha sobre o lugar de morar, limitada pelas restrições das condições econômicas. São os bairros ou periferias onde a terra é mais barata. Ela é mais barata porque não há infraestrutura adequada, os acessos são difíceis e a mobilidade é prejudicada. Outros fatores também são determinantes para a instalação das pessoas, como locais com grande declividade ou muito próximos aos cursos d’água; ou seja, áreas de risco, sujeitas a deslizamentos de terra ou a enchentes.
Viçosa não é uma cidade diferente de outras, embora tenha suas peculiaridades. Sedia um dos campi mais belos e bem conservados do país. É mais verticalizada do que muitas outras cidades do mesmo porte populacional, especialmente na área central, com maior concentração dentro de um raio de um quilômetro das Quatro Pilastras. Essa pressão imobiliária coloca em risco a permanência do patrimônio arquitetônico. Há ainda bairros com boas condições de infraestrutura, contíguos ao centro, como Clélia Bernardes, Ramos, parte do Fátima, Lourdes e Belvedere. Na porção mais ao sul e em parte do leste localizam-se cerca de duas dezenas de condomínios de alta renda, com destaque para a aglomeração em torno do Bosque Acamari e na região dos Cristais. As áreas mais carentes são muitas e bastante populosas, como os bairros Santo Antônio, São Sebastião, Bom Jesus, Sagrada Família, Amoras, Novo Silvestre e os conjuntos Coelhas.
Planejar e gerir cidades é buscar formas de diminuir continuamente as disparidades socioambientais da ocupação humana no território municipal. Em Viçosa, na área central, deve-se avaliar o amplo processo de verticalização quanto ao forte adensamento populacional e à circulação de veículos, bem como garantir a permanência do patrimônio arquitetônico. Nas áreas periféricas, é necessário melhorar as condições das moradias, da mobilidade com a qualidade das calçadas e das vias de ligação entre os bairros, o transporte coletivo, com serviços noturnos e aos finais de semana, a implantação descentralizada de equipamentos públicos de qualidade, bem como o estímulo à geração de empregos próximos aos bairros residenciais. São importantes ações efetivas complementares à regularização fundiária, à assistência técnica para habitação social, à fiscalização e ao controle adequados, tanto das edificações quanto dos loteamentos e da ocupação de áreas de risco.
















