10 maio 2026

ARQUITETO JOÃO DINIZ

 
Palestra do Arquiteto e Urbanista e Professor João Diniz, para os estudantes de Arquitetura e Urbanismo da UFV, na casa do Baile, em Belo Horizonte. Maio de 2026. 

Humildade, carinho, experiência, capacidade.

Fotos Ítalo Stephan, maio  de 2026.

MORADIA POPULAR DIGNA

Casa do Programa Minha Casa Minha Vida, em Viçosa-MG, abandonada.

Ocorreu, no último dia 30 de abril, na Câmara Municipal de Viçosa, uma audiência pública sobre a situação da moradia popular na cidade. Estiveram presentes o deputado federal Padre João e o deputado estadual Leleco. A mesa foi presidida pela vereadora Prisca, que estava acompanhada por técnicos da Prefeitura, nas áreas de habitação, assistência técnica e planejamento urbano. O público lotou a plateia, composta por cidadãos e representantes de entidades ligadas à habitação.

Chamou a atenção a presença de apenas três vereadores em uma audiência de tamanha importância: Prisca, Marly e Dr. Omar. Na mesa, discutiu-se sobre a necessidade de planejamento na área da habitação para atender parte do grande déficit habitacional do município. Padre João enfatizou a relação com a Campanha da Fraternidade deste ano, promovida pela CNBB, que traz o tema "Fraternidade e Moradia" e o lema "Ele veio morar entre nós" — tudo a ver com o tema da audiência.

Estima-se que o déficit habitacional em Viçosa seja de aproximadamente 1.500 unidades. Esse número corresponde ao déficit quantitativo, ou seja, à falta de moradias novas. Entretanto, devemos lembrar que existe um déficit qualitativo ainda maior, pois há centenas, talvez milhares de moradias insalubres, com problemas estruturais, sem acabamentos, com cômodos insuficientes e localizadas em áreas de risco. Como resolver essas questões urgentes? Não creio que basta construir novas casas na periferia, como no caso dos conjuntos das Coelhas. Essa é uma situação à parte, que exige melhorias das condições de acesso, da qualidade das casas e de cidadania, pois expõe o abandono vexatório por parte do poder público.

Viçosa ainda não possui um Plano Local de Habitação, o que é imprescindível. Embora planos demorem a ser aprovados, há o que pode ser iniciado sem demora. O município precisa criar um Fundo de Habitação e um Conselho na área, o que pode ser feito em curto prazo. Por outro lado, o Plano Diretor de Viçosa já definiu várias Zonas de Especial Interesse Social (ZEIS). As ZEIS são áreas em que “há interesse público na urbanização e regularização fundiária, urbanística e jurídica, na recuperação ambiental e em medidas necessárias à manutenção de suas tradições e cultura, bem como para implantar ou complementar programas habitacionais de interesse social” (Art. 51). Portanto, já existe uma base para a implantação de moradia digna.

Adicionalmente, o prefeito lançou recentemente o programa “Reformando com Dignidade”, que oferece recursos para a compra de materiais de construção a famílias necessitadas. Esse é um programa bem-vindo, mas que não pode ser tocado sem o devido acompanhamento técnico e controle dos materiais empregados. É necessário saber por que, onde e como aplicar esses materiais. Sem isso, corre-se o risco de resolver um problema, mas manter outros, como falta de conforto térmico, iluminação e ventilação adequadas, além de banheiros inseguros. Além disso, a moradia pode estar em área de risco ou carecer de proteção estrutural.

Viçosa possui uma lei de Arquitetura e Engenharia Públicas aprovada há mais de vinte anos, mas que ainda não tenha sido colocada em prática. Ela já deveria ter produzido muitas melhorias. Existem instituições que podem atuar em parceria com a prefeitura para atender várias famílias, proporcionando moradia digna, legal e saudável. Leis já temos, e a intenção política também existe. Falta apenas colocar tudo isso em prática.


01 maio 2026

AUDIÊNCIA PÚBLICA: SITUAÇÃO DA MORASIA POPULAR EM VIÇOSA

Audiência pública na Câmara Municipal. Bastante público, com entidades diversas. Apenas três vereadores presentes: Prisca, Marly da Causa animal e Dr. Omar.

Muitas cobranças: Plano Local de Habitação, Conselho Municipal de Habitação, Fundo Municipal para Habitação Social; Assistência Técnica em arquitetura e engenharia públicas.
 
Presentes na mesa: Deputado Federal Padre João; Deputado Estadual "Leleco", Vereadora Prisca presidindo a mesa;  o geógrafo Caínã , convidado e Lucas, representando a Semplag; Subsecretária da Assistência Social e Diretor da Habitação .

Fotos Ítalo Stephan, 30 de abril de 2026.


26 abril 2026

VIÇOSA CIDADE DESIGUAL


Bairros Fátima e Ramos: alta densidade residencial.

Próximo ao Júlia Molá: expansão urbana com verticalização. Isso é realmente necessário?  .

Coelhas 1/ MCMV: abandono, muros e portões sem janelas, longe da cidade. 

Vale do Sol: grande loteamento em área de vazio urbano.

Fotos Ítalo Stephan, abril de 2026.

HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL DIGNA

 

Conjunto Coelhas I, do Programa Minha casa Minha Vida em Viçosa: péssima solução urbanística: isolamento, abandono, sérios problemas sociais. desfiguração, reformas e ampliações sem orientação técnica.   

Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa-MG, em 23/04/2026

Recentemente, a Prefeitura Municipal de Viçosa lançou o programa “Reformando com Dignidade”, que atenderá pessoas em situação de vulnerabilidade, por meio da concessão de um cartão com crédito para a compra de materiais de construção. O objetivo é promover melhorias nas residências, seja por meio de reformas, ampliações, conclusões de obras ou adaptações necessárias. O programa se restringe a imóveis localizados fora de Áreas de Preservação Permanente, bem como de áreas de ocupação irregular. O auxílio financeiro poderá chegar a até R$ 5 mil por grupo familiar.

Trata-se de uma iniciativa importante, de alcance social voltado aos mais necessitados, mas que precisa ser complementada por outras ações igualmente essenciais. Antes de utilizar o crédito, é fundamental saber quais materiais adquirir, em que quantidade, para qual finalidade e como aplicá-los corretamente. Para isso, é necessária a assistência técnica de profissionais de arquitetura e urbanismo. Caso contrário, o uso inadequado dos materiais para resolver um problema pode acabar mascarando outros.

Há um enorme déficit qualitativo nas habitações, com domicílios sem acesso a padrões mínimos de serviços adequados. Esse déficit ocorre, principalmente, em edificações autoconstruídas, improvisadas ou erguidas em áreas exíguas, muitas vezes junto a encostas. Ele é significativamente maior do que o déficit quantitativo e se manifesta em todo o país. Segundo o Observatório do Terceiro Setor, o déficit habitacional quantitativo no Brasil é de 5,9 milhões de moradias, enquanto o qualitativo atinge cerca de 24,9 milhões de unidades habitacionais. Esse quadro abrange moradias localizadas em áreas urbanas inadequadas, com espaços insuficientes, baixa qualidade construtiva, ausência de cálculo estrutural, paredes sem reboco, telhados sem forro ou laje, além de infiltrações, mofo e trincas. Essas condições resultam em ambientes insalubres, mal ventilados e pouco iluminados, com uso inadequado de materiais, por vezes prejudiciais à saúde, além de instalações elétricas precárias, sistemas hidráulicos mal dimensionados e redes sanitárias e pluviais com descarte irregular.

Municípios como Juiz de Fora instituíram Escritórios Públicos de Arquitetura e Engenharia para melhorar as condições de moradia. Viçosa possui uma Lei de Arquitetura e Engenharia Públicas - Lei nº 1.637/2005, alterada pela Lei nº 2.170/2011 - que precisa ser colocada em prática. Essa política pública envolve o planejamento, o projeto e a execução de obras e serviços técnicos voltados ao interesse social, especialmente na habitação de baixa renda e na infraestrutura urbana. Impõe-se a boa aplicação de recursos acessíveis, porém limitados.

O artigo 1º dessa lei assegura “o direito à assistência pública e gratuita nas áreas de arquitetura, urbanismo e engenharia para estudos, pesquisas, planejamentos, projetos e execução, bem como toda e qualquer atividade técnica atribuída a essas áreas de atuação, inclusive as voltadas à regularização urbanística e fundiária para a habitação de interesse social direcionada às populações de baixa renda”. Já o artigo 2º afirma que o direito à assistência técnica “abrangerá todas as necessidades apresentadas, como: novas edificações, reformas, adequações e intervenções, ampliação, recuperação e compensação, para viabilizar a habitação”.

Prefeito, coloque seu programa de reforma em prática, mas não deixe de somá-lo à Lei de Arquitetura e Engenharia Públicas, ora ignorada. Há muito trabalho pela frente e, iniciando-o corretamente, poderão surgir desdobramentos futuros, com recursos federais ou, como tem sido comum, por meio de emendas parlamentares, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida de grande parte da população viçosense.

24 abril 2026

CENTRO DO RIO DE JANEIRO: PATRIMÔNIO EM RISCO

Lapa, Centro da cidade do Rio de Janeiro. Centenas de imóveis vaziosem visível deterioração.
A prefeitura do Rio está leiloando imóveis abandonados na Lapa e Rua do Ouvidor para combater a vacância, com foco em reconversão residencial ou comercial via programas como o Reviver Centro Patrimônio ProApac. Soluções incluem intervenção em imóveis com dívidas de IPTU, leilões, e projetos de lei para reformas forçadas

Centro do Rio de Janeiro. Belos móveis centenários abandonados.  

Soluções incluem intervenção em imóveis com dívidas de IPTU, leilões, e projetos de lei para reformas forçadas. Incluem intervenção em imóveis com dívidas de IPTU, leilões, e projetos de lei para reformas forçadas. 
Intervenção Legal: Discussão de projetos de lei complementar para permitir que a prefeitura realize manutenções, intervenções ou desapropriações em imóveis abandonados com proprietários negligentes, cobrando os custos posteriormente.

Lapa. Imóvel Art Nouveau, beleza abandonada. 

Outras possibilidades: revisão do IPTU: Propostas para aplicar alíquotas de IPTU reduzidas ou flexíveis em perímetros específicos, incentivando a ocupação.

Fotos Ítalo Stephan. Abril de 2026.
 

18 abril 2026

PAÇO IMPERIAL - RIO DE JANEIRO

Paço Imperial aberto com exposição de mais de cem artistas. Foto do Pátio Interno.

Escada interna

Salão de exposições

Salão de exposições.

"Antiga residência do governador e do Vice-Rei no século XVIII, o Paço Imperial no Rio de Janeiro foi o centro das movimentações políticas e sociais da época, registrando importantes fatos históricos do Brasil Colônia, Real e Imperial. Entre eles, o Dia do Fico, a Abolição da Escravidão e a Proclamação da Independência do Brasil. Em 1808, com a vinda de Dom João VI, o local passou a se chamar Paço Real e recebeu o atual nome em 1822, com Pedro I e Pedro II, até a Proclamação da República, em 1889."

Fotos Ítalo Stephan, Abril de 2026
Texto, fonte: 
https://www.gov.br/iphan/pt-br/unidades-especiais/centro-cultural-paco-imperial 

12 abril 2026

CIDADES RESILIENTES

 

Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa-MG, em 9 de abril de 2026

Segundo a ONU, resiliência significa “a habilidade de um sistema, comunidade ou sociedade exposta a riscos de resistir, absorver, acomodar-se e reconstruir-se diante dos efeitos de um desastre, em tempo e modo adequados, incluindo a preservação e restauração de suas estruturas e funções essenciais”. A ONU lançou uma Campanha Mundial de Redução de Desastres. A Secretaria Geral para a Redução de Riscos de Desastres lançou, em conjunto com a ONU, o manual “Minha cidade está se preparando”. Nele, define-se que uma cidade resiliente é aquela que deve atender a vários critérios.

O primeiro aspecto é que o município deve ter um prefeito competente e responsável, que garanta uma urbanização sustentável, com a participação de todos os grupos sociais. As mudanças climáticas precisam estar na agenda do planejamento territorial. 

Um município resiliente deve evitar desastres, de modo que toda a sua população viva em residências e bairros providos de infraestrutura adequada e serviços básicos (escolas, coleta de lixo, serviços de emergência etc.). Devem ser tomadas medidas de prevenção e preparação para desastres, com o objetivo de proteger seus bens (pessoas, residências, mobiliário, patrimônio cultural e capital econômico) e minimizar perdas físicas e sociais decorrentes de eventos climáticos extremos. Para isso, deve investir na redução de riscos e ser capaz de se organizar antes, durante e depois de um desastre; deve estar apto a restabelecer rapidamente seus serviços básicos, bem como retomar suas atividades sociais, institucionais e econômicas após um desastre. Suas estruturas precisam atender aos padrões de construção, evitando a ocupação desordenada em áreas de encosta ou sujeitas a inundação. No município, deve ser desenvolvido um forte trabalho de educação, com base nas ameaças e vulnerabilidades às quais seus cidadãos estão expostos.

Liderada pelo Escritório das Nações Unidas para a Redução de Riscos de Desastres (UNDRR), há uma iniciativa que, “por meio da articulação de vários atores, promove a resiliência local por meio da defesa política, da troca de conhecimentos e experiências e do estabelecimento de redes de aprendizagem entre as cidades”, buscando, simultaneamente, o “fortalecimento das capacidades técnicas, a conexão entre vários níveis de governo e o estabelecimento de alianças estratégicas”. 

O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional apoia as cidades em seu caminho para a redução de riscos e o desenvolvimento da resiliência por meio de um roteiro para a resiliência urbana, facilitando o acesso a ferramentas de conhecimento, diagnóstico, monitoramento e elaboração de relatórios. Também oferece orientação e apoio às cidades para melhorar seu entendimento sobre redução de riscos e resiliência, aprimorar o planejamento estratégico e executar ações que lhes permitam avançar. O objetivo é assegurar que as cidades se tornem mais inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis até 2030, contribuindo diretamente para a realização do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS/ONU 2030) e de outras iniciativas globais.

Como visto, prefeitos e gestores públicos locais são fundamentais para a construção de cidades resilientes. Atualmente, 31 municípios mineiros, inclusive Juiz de Fora, Divinésia, Conselheiro Lafaiete, Guidoval, Ubá, Santa Cruz do Escalvado, Barra Longa e Rio Doce, estão inscritos na iniciativa “Construindo Cidades Resilientes 2030”, uma campanha nacional em andamento para a redução de desastres. Além disso, os gestores devem impedir ocupações indevidas, definir estratégias para remover habitações em áreas de risco, planejar obras de contenção e ampliar políticas públicas de habitação. Não queremos mais assistir passivamente ao que acontece todo verão, como ocorreu em Petrópolis, São Sebastião, na Bahia, no Rio Grande do Sul e em Juiz de Fora.

Imagem:
https://www.gov.br/mdr/pt-br/noticias/governo-federal-e-parceiro-do-programa-construindo-cidades-resilientes-2030

11 abril 2026

MUSEU DA IMAGEM E DO SOM - RIO DE JANEIRO

Museu da Imagem e do Som, Copacabana, Rio de Janeiro.
Projeto de Diller Scofidio + Renfro
Obra arrojada de longo tempo, iniciada em 2014, está quase pronta. 
Inaugurações parciais a partir de abril

Foto Ítalo Stephan, abril, 2026



 

07 abril 2026

PARQUE DAS RUÍNAS - SANTA TERESA _ RIO DE JANEIRO


Belíssimo ponto turístico carioca.


Localizado no alto do morro em Santa Teresa, o parque é um belíssimo mirante. De lá é possível ter uma vista incrível do centro da cidade e de toda a orla carioca.


Batizado de Parque das Ruínas, o espaço foi inaugurado pela Prefeitura do Rio de Janeiro em 1997. O projeto é dos arquitetos Ernani Freire e Sônia Lopes e mistura as estruturas de ferro e vidro as paredes em ruínas.


As ruínas são o que sobrou da casa de Laurinda Santos Lobo (1878-1946). O casarão foi construído durante o Império para o Ministro Joaquim Murtinho Nobre. Sobrinha e herdeira, Laurinda reformou o lugar nos anos 1930, para sua moradia e ali mantinha uma vida cultural intensa. Promovia muitas festas e saraus que reuniam os intelectuais e artistas da época. Com sua morte, o palacete ficou totalmente abandonado


Texto:https://www.visitesantateresa.rio/parquedasruinas/
Fotos Ítalo Stephan, abril 2026. 

22 março 2026

SALVE-SE QUEM PUDER


 SALVE-SE QUEM PUDER

Mais uma vez, depois de mais uma tragédia ambiental de grandes proporções, vem a imprensa apresentar os experts em meio ambiente, para que expliquem detalhadamente o que aconteceu e o que deveria ser feito. Ano a ano, fatalidade a fatalidade, isso se repete. Os especialistas vão falar das mesmas causas: falta de planejamento urbano e ambiental; falta de fiscalização que impeça ocupações; negligência e irresponsabilidade dos governantes; falta de recursos para obras e para a Defesa Civil. Vão mencionar a desobediência ao Código Florestal Brasileiro, que existe desde 1965; os inúmeros estudos e mapas de áreas suscetíveis a deslizamentos e inundações. Vão alertar para a flexibilização criminosa da nova versão do Código Florestal Brasileiro.

E mais uma vez, passadas as maiores dores, contabilizados os prejuízos, deixadas as saudades e diminuídos os interesses na imprensa, nas próximas tempestades, virão novas tragédias, nos mesmos locais, ou aleatoriamente em qualquer cidade, em qualquer região. Já ocorreu no Rio Grande do Sul, na Serra de Petrópolis, na Serra do Mar, em Recife, em Salvador, na Baixada Fluminense. A próxima pode ser a nossa cidade, ou a de qualquer um de nós. 

Em Juiz de Fora, mesmo com as obras realizadas, essas não foram suficientes para evitar a tragédia. Da lama à poeira, partes de bairros estão interditadas, casas inteiras desabaram, bairros inteiros invadidos pelas águas. O saldo são mais de 60 mortos, milhares de desabrigados, milhões de reais em prejuízos materiais e as doenças decorrentes, como diarreia, hepatite, leptospirose etc. Vale dizer que nenhuma outra cidade suportaria tamanho fenômeno, com o montante de chuvas acumuladas. Vejam o que aconteceu com Ubá, e aqui abro um parênteses, pois a lei dessa cidade vizinha permite a construção de prédios praticamente dentro d’água; o que é uma aberração, um crime, uma exposição de pessoas a riscos dos quais já presenciamos há décadas. 

É preciso dizer, alertar que, se as chuvas da quantidade que vieram, caíssem em Viçosa, varreriam desastrosamente o que estivesse no caminho dos córregos Conceição e Santo Antônio e do ribeirão São Bartolomeu. Nem mesmo as lagoas do câmpus da UFV seriam garantia de segurança. Há encostas muito perigosas em Viçosa, áreas de risco mesmo, como a que segura o bairro Belvedere, a que está em cima da rua Milton Bandeira, as encostas do Bom Jesus e Estrelas, do Nova Viçosa, São Sebastião, Amoras, Morro do Escorpião.   Tudo isso já foi mapeado pela Defesa Civil e no Plano Diretor. 

Os desastres ambientais reforçam a urgente necessidade de adaptações das cidades brasileiras aos eventos climáticos extremos. São necessárias obras, desocupação, realocações de moradias, e, desde já, impedir que as ocupações em áreas de risco continuem. Os governantes empurram as responsabilidades uns para os outros. Possivelmente, alguns deles sequer acreditam nas evidentes mudanças climáticas. Os governantes não destinarão recursos prometidos, ou mal iniciarão as medidas mitigadoras. Com o tempo, esquecerão, pois é ano de eleição, ou pior, vão usar imagens dos dramas para tentar ganhar votos. Por outro lado, as pessoas jamais esquecerão a perda de parentes, de suas casas, das raízes culturais, das penosas reconstruções da vida. O planejamento urbano e os cuidados ambientais serão novamente assuntos para serem lembrados em longas matérias jornalísticas, depois de novas mortes e de grandes perdas materiais. Não pode mais ser um salve-se quem puder. A situação é intolerável e desumana; não permite a contínua negligência crônica de quem nos governa.


21 março 2026

TRISTECIDADE

 


Eis apenas alguns dos sérios danos ocorridos em Juiz de Fora. 
Ruas inteiras ameaçadas (Morro da Glória); acesso importante para a cidade alta, destruído;  pedras ameaçadas de rolar centro abaixo. Colégio de Aplicação João XXIII interditado.

Foto Ítalo Stephan, 21/03/2026

I Fórum Cidade em Perspectiva

 



O I Fórum Cidade em Perspectiva foi realizado no dia 14/3,  no Centro Evangélico das Missões, em Viçosa. Importante para os pastores de várias igrejas evangélicas. Tive a honra de participar, juntamente com a Secretária Municipal de Assistência Social de Viçosa, Sra. Marise Alves. Falei dos desafios do planejamento e gestão urbanos em Viçosa.

Excelente iniciativa. Que hajam mais fóruns.

Fotos Ítalo Stephan, março de 2026

10 março 2026

O AGENTE SECRETO



Não vou falar dos sentimentos comuns que demonstramos sobre um determinado filme: gostei, amei, achei lindo é imperdível, ou os seus opostos. 

O  Agente Secreto é um filme sobre a humanidade, com todos os seus defeitos e virtudes. Por isso é rico, complexo; esbanja a riquíssima cultura nordestina; expõe as fraquezas, descuidos, preconceitos, prazeres e dores; caricaturiza personagens (como Fellini o fazia em seus filmes); escancara  o bem e o mal; expõe o crime e o amor, a verdade e a lenda, o carnaval e a matança; a honestidade e a longeva corrupção; a beleza e a feiura, a diferença da tecnologia entre os anos atuais e os anos 1970 (orelhão, fichas telefônicas, telegrama, filmes em rolo,  cinema de rua, carroças que chamávamos de automóveis). Ah, traz a lenda recifense da perna cabeluda, para culpar o que os policiais faziam nas zonas de meretrício.

Um filme necessário sobre a vida; local, pernambucano, brasileiro, mundial. Merecedor dos 70 prêmios que já ganhou.    

Assistam!

Foto: https://veja.abril.com.br/cultura/como-assistir-o-agente-secreto-online-filme-indicado-ao-oscar-chega-ao-streaming/

08 março 2026

MARIA MARIA E A CIDADE

 

Maria Maria mora em uma cidade nem muito pequena, nem muito grande. Mesmo vivendo em um bairro de classe média, a vida das mulheres ali é complicada. Maria Maria tem sorte de estar bem localizada; sabe que, nos bairros mais afastados, não há ônibus suficientes nem horários noturnos, o que impede muita gente de estudar à noite. Quem mora lá tem uma vida mais difícil do que a de Maria Maria : as mulheres precisam de mais tempo em deslocamentos e não encontram perto o que precisam, como creche, escola, atendimento de saúde, trabalho ou lazer.

Parece-lhe que a cidade foi feita só para os homens. Além do medo, as mulheres têm dificuldades para andar nas ruas com carrinho de bebê ou carrinho de compras. Não há locais para trocar fraldas ou amamentar quando estão longe de casa. Maria Maria não tem coragem de fazer o que o marido faz - sair muito cedo, ainda escuro, para ir à academia ou andar sozinho por ruas mal iluminadas. 

No trajeto do trabalho para casa, a pé, mesmo morando numa área mais central, Maria Maria anda sobressaltada, pois as ruas por onde passa têm muros altos de ambos os lados, sem janelas, apenas portões fechados. Não se vê gente, não há grades nem jardins; a iluminação é fraca e há terrenos baldios cheios de mato.

Como outras mulheres, Maria Maria se desloca por necessidade mais do que os homens. Enquanto eles fazem basicamente o trajeto casa-trabalho-casa, usando o único carro da família, ela percorre esse caminho a pé, ainda acrescenta levar e buscar a filha na escola, fazer compras e ir à casa dos pais e dos sogros para ver se estão bem. Além disso, o trabalho doméstico é desvalorizado. Na volta do trabalho traz compras, busca a filha e chega em casa para uma nova jornada: o trabalho doméstico - preparar o jantar, lavar roupas, cuidar da filha, ligar para a mãe, arrumar a casa. Do marido, não reclama: ele lava as louças, arruma a mesa do café, lava suas cuecas e deixa a filha na escola. 

Depois de todos os afazeres, Maria Maria dorme tarde, cansada, e acorda cedo para mais uma jornada heroica.