Temas de discussão: Arquitetura e Urbanismo. Planejamento Urbano. Patrimônio Histórico. Futuro das cidades. Pequenas e médias cidades. Architecture and Urban Planning. Heritage. The future of the cities.
26 abril 2026
VIÇOSA CIDADE DESIGUAL
04 maio 2025
DISPERSÃO URBANA
Artigo publicado no jornal Folha da mata, Viçosa-MG, em 2 de maio de 2025
Um fenômeno contemporâneo vem ocorrendo na maioria das nossas cidades: é o que chamamos de dispersão urbana. Inicialmente, Viçosa surgiu e acompanhou os vales; depois se desenvolveu ocupando as encostas e, posteriormente, os topos de morros. A proximidade com o campus da Universidade Federal de Viçosa, com suas atividades iniciadas em 1926, e a facilidade de acesso induziram a verticalização, primeiramente no acesso das “Quatro Pilastras” e, depois, no acesso da via alternativa, que desemboca na principal artéria viária: a avenida Marechal Castelo Branco. Por fim, expandiu-se de forma desorganizada, para além da sua malha viária.
Na cidade, ocorrem outros fenômenos decorrentes do processo de produção do espaço urbano, como a segregação e a produção de vazios urbanos. O patrimônio arquitetônico, em sua maioria, de estilo eclético, está em risco de perdas importantes em função da verticalização. A forma mais visível do crescimento é a verticalização exacerbada, por meio da proliferação de edifícios de sete a doze pavimentos nos bairros centrais (Centro, Ramos, Clélia Bernardes, Fátima, Lourdes, Santa Clara) e em bairros periféricos, a eles, com edifícios de quatro a sete pavimentos (Santo Antônio, João Braz, Silvestre, Bom Jesus, Vau-Açu).
A forma menos visível é a dispersão urbana, que pode ser definida como a ocupação de áreas periféricas, mais baratas, com infraestrutura geralmente precária e isoladas, desconectadas da malha urbana. Isso deixa grandes vazios sem ocupação. A dispersão ocorre de duas maneiras. Uma, involuntária, imposta à maior parte da população: a população de menor renda que não tem escolha e é forçada a se mudar. A segunda forma é a autossegregação, que envolve aqueles que têm a opção de onde querem ou podem morar. Essa produção do espaço em Viçosa, marcada pela transição rural-urbana, encarece o custo de gestão a cidade e impacta negativamente o meio ambiente. Viçosa tem, pelo menos, 26 condomínios fechados ou chacreamentos, com quase metade em áreas rurais e, pelo menos, dez loteamentos periféricos, em condições precárias de infraestrutura. Os recursos do município são gastos de forma desigual, favorecendo os condomínios e chacreamentos fora da área urbana - portanto, ilegais - com a dotação de ao menos parte da infraestrutura urbana (pavimentação, passeios, iluminação pública), enquanto a maior parte dos bairros permanece com infraestrutura precária. Eis o Estado, também segregador, refém — ou parceiro — do setor imobiliário, ajudando a produzir, além da dispersão, uma segregação socioespacial.
A periferia da cidade de Viçosa cresce, expande-se, espalha-se de várias maneiras: seja pela dispersão em direção às áreas rurais, seja nas formas de segregação voluntária e imposta, deixando vazios urbanos e ampliando os custos de gestão do território municipal. O planejamento e a gestão urbana enfrentam dificuldades quanto à produção, regularização e aplicação da legislação urbanística. Viçosa torna-se cada vez mais desigual, injusta e insustentável, ambiental e economicamente. Os pontos aqui levantados indicam uma ineficiência no planejamento urbano adequado e equilibrado, além de descuidos com a gestão do território — problemas que se agravam continuamente. Da forma como está, estamos cada vez mais distantes de uma justa distribuição dos benefícios e dos ônus decorrentes do processo de urbanização, como estabelecido no Estatuto da Cidade e nos Planos Diretores de 2000 e de 2023.
02 janeiro 2024
ARTIGO: GENTE E BICHO
Artigo publicado no jornal Folha da mata, Viçosa, em 28 de dezembro de 2023
Moramos numa cidade que não é muito grande, nem muito pequena. Nosso município faz parte do que chamam “Mar de Morros”, onde antes era tudo Mata Atlântica. Muito dela foi destruída, mas o nome ficou para designar a região: a Zona da Mata. Nossa cidade não para de crescer, só que de forma bastante desorganizada. Ela se expandiu, no início, ao longo dos vales, onde ainda esconde e espreme os leitos dos cursos d’água. Depois cresceu para o alto dos morros. Isso dizimou as matas ou o que já foram cafezais. Ficaram terrenos sujeitos à perigosa ação das chuvas. Aos poucos e de forma descuidada adentrou-se na área rural, modificando os usos; moldando espaços nem sempre adequados para lazer, festas, jardins; construindo piscinas, açudes. Esse crescimento impacta muito o meio ambiente e altera a vida dos animais e a forma com a qual convivemos com eles.
Os animais das matas estão vivendo cada vez mais entre nós, ou melhor, nós adentramos continuamente em seus habitats. Tudo se misturou: urbano com rural, animais domésticos com animais silvestres, gente com bicho. No bairro onde moro, vejo, de manhãzinha e de tardinha, enormes bandos de garças acompanhando o vale do ribeirão. Isso é muito bonito e queria que isso acontecesse para sempre. Recebo visitas matutinas e vespertinas de um bando de galinhas d’angola, sei que gostam do meu quintal, porque lá não tem cachorro. Não é grande, mas tem várias árvores que servem de ponto de descanso e de observação para as aves. Recebo visitas de teiús enormes, gambás, tatus, jacus, araçaris, tucanos, maitacas, bem-te-vis, sabiás, galos do campo. Eles comem frutos que encontram no meu quintal: juçara, coco babão, jabuticaba, uvaia, pitanga. Antes aqui havia mais tatus, preás e corujas barranqueiras; agora ouço falar mais de pernilongos, escorpiões, cobras, baratas, cigarras, formigas cortadeiras e lagartas que acabam com nossos jardins e quintais.
Meus vizinhos reclamam dos gatos que deixam excrementos em seus jardins e deixam loucos seus cães de estimação, enquanto outros vizinhos os alimentam às escondidas. Já vi na cidade muitos comedores, bebedores e casinhas para os cães de rua, que são muitos. De vez em quando aparecem cães com um tipo de blusa para aquecê-los no inverno. Essas são iniciativas legais. Infelizmente, por outro lado, há vários casos de maus tratos aos animais: filhotes de gatos jogados no rio; filhotes de cães abandonados em terrenos baldios; cães abandonados nas ruas, porque os donos não os querem mais; animais morrendo envenenados. Ah, quanta desumanidade! Há, na cidade uma instituição privada de proteção dos animais que tenta, com muita dificuldade, abrigar essas pobres criaturas,pois depende de ajuda das pessoas e do poder público, só que o número de animais abandonados não para de aumentar.
Os animais correm riscos com os humanos e nos deixam grandes problemas. De vez em quando, cavalos vão pastar nos jardins da praça central, ou, o que é perigoso demais, costumam ficar soltos nas estradas. Isso cria um risco constante de acidentes graves, mas ninguém impede isso de se repetir. No campus da Universidade ainda há capivaras, jacarés, micos e cobras. Seriemas já adotaram os jardins da UFV como lar. Há muitos cães abandonados que se tornaram agressivos. Enfim, temos de cuidar dos animais, respeitá-los e desenvolver políticas públicas para lidar com essa questão. Nós devemos, gente e bicho, nos acostumar a conviver harmoniosamente, também é necessário controlar a expansão da cidade área rural adentro.
20 outubro 2023
DO CENSO 2022
17 dezembro 2022
QUITO, EQUADOR
28 outubro 2022
Nosso Planeta: Aglomerado urbano
Nosso Planeta - Aldeias na Índia
07 junho 2021
Tragédia em Rio das Pedras
Rio das Pedras, dominada pelas milícias, onde a fiscalização não entra.
Tragédia em Rio das Pedras (RJ) é reflexo da ausência de política habitacional
Manifestação do CAU/RJ, apoiada pelo CAU Brasil, sobre desabamento de prédio na zona oeste do Rio de Janeiro
As mortes da criança e de Natan Gomes, somada a outras vítimas na recente tragédia de Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio de Janeiro, são reflexo claro da ausência de políticas públicas que garantam o direito à moradia, que acaba submetendo uma grande parcela da população carioca mais vulnerável a um braço perverso da especulação imobiliária que vem crescendo na cidade nos últimos anos.
Desabamentos de edificações irregulares em Rio das Pedras e na Muzema, comunidade vizinha, são recorrentes. Em abril de 2019, dois prédios ruíram na comunidade, deixando 24 mortos. Lamentavelmente, são tragédias que poderiam ser evitadas se o poder público investisse mais no combate aos grupos que comandam esse território. Tais grupos crescem, assumindo o controle dos serviços e das políticas que deveriam ser garantidos pelo Estado, como segurança, transporte, abastecimento e, inclusive, habitação. Dessa forma, sem escolha, cabe à população morar em locais sem infraestrutura, sem conforto, sem salubridade e com enorme insegurança fundiária e sobre as condições estruturais das edificações.
No que tange a política habitacional, não faltam instrumentos legais para subsidiar as ações do poder público. Como exemplo, tem-se a Lei Federal n° 11.888/2008, que assegura às famílias de baixa renda assistência técnica pública e gratuita para o projeto e a construção de habitação de interesse social no país. Em junho de 2019 foi sancionada a Lei n° 6.614, que institui a assistência técnica para projeto e obra para população de baixa renda na cidade do Rio de Janeiro, lei essa proposta pela ex-vereadora Marielle Franco que enfrentava as milícias e foi brutalmente executada em 2018.
O CAU/RJ se solidariza com as famílias vitimadas. Esperamos que o poder público compreenda de vez a importância da implantação de uma política habitacional consistente. Demolição ou remoção não é solução. O fato ocorrido em Rio das Pedras não deve servir para criminalizar e punir a população explorada. Urbanizar, levar infraestrutura, produzir moradias, melhorias habitacionais, promover a regularização fundiária, são estratégias importantes para libertar esses territórios e levar dignidade às famílias. O Conselho, assim como os arquitetos e urbanistas fluminenses, coloca-se à disposição para enfrentar o problema e encontrar soluções, que devem ser construídas em conjunto com a sociedade.
CAU/RJ, Rio de Janeiro, 03 de junho de 2021
Fonte: https://www.caubr.gov.br/tragedia-em-rio-das-pedras-rj-e-reflexo-da-ausencia-de-politica-habitacional/
13 julho 2020
LIVE
Nossas conversas ocorrem às 20h, abertas e podem ser acessadas pelo Link:
Jitsi > https://meet.jit.si/UrbanismoDAUUFPR
E pelo Youtube:
LAHURB-UFPR > https://www.youtube.com/channel/UCNgezokKqBE-FXohxqiDg0A
31 outubro 2019
PALMAS, TOCANTINS
27 outubro 2019
PARAÍSO PROTEGIDO
Estes são os meus comentários sobre a nota divulgada pelo Vereador Geraldo Luís Andrade, quando da reprovação da Câmara Municipal, por 9 a 6, da manutenção da Comunidade do Paraíso enquanto rural, no plano diretor.
Segundo o vereador, “Perdemos a oportunidade de que o plano de manejo da APA do São Bartolomeu fosse o instrumento para definir as diretrizes de ocupação daquela, que era uma das, senão a mais tradicional comunidade rural da nossa cidade.”
- Ao contrário do que foi dito, a delimitação de uma pequena área como zona urbana não prejudicará em nada a elaboração do plano de manejo da APA do São Bartolomeu. A delimitação clara do que não é mais urbano ajudará no processo.
“O Paraíso vem perdendo seu perfil pela omissão do poder público que nunca atuou para frear e impedir o crescimento irregular e desordenado”.
- O Poder Público tem sua parte de responsabilidade, pela omissão, mas sem delimitar parte da área como urbana, o parcelamento irregular ficou por conta de quem parcelou e ocupou à revelia do Incra. É um tanto leviano culpar o Poder Público municipal.
“A grande vitoriosa da noite foi especulação imobiliária que agora reinará legítima pela Lei.
Restrições para a ocupação, da que se torna a mais valiosa área da urbe Viçosa, claro que tem.”
- Pelo contrário, a especulação imobiliária já acontece na região há vários anos. A especulação imobiliária produziu lotes mínimos, com preços urbanos. A falta de regras permitiu a reprodução de lotes muito pequenos, e caros. Promoveu a destruição de cobertura vegetal e a destruição das margens dos córregos e o assoreamento dos lagos no campus da UFV. Perguntem aos principais agentes da construção civil de a eles interessam regras – vide os poços artesianos e loteamentos clandestinos.
“Agora, não seria a medida mais cômoda para tentar resguarda nossa área mais rica em águas, restringir mas permitir o uso urbano daquelas terras!?”
- Com regras, com a possibilidade de parcelamento em lotes maiores, com grande taxa de permeabilidade, o pedaço que se tornará urbano poderá ter a chance de ter uma urbanização mais protetora. Sabemos que o vetor adequado de expansão urbana é em sentido oposto, ao norte (Silvestre, Novo Silvestre).
“Fico a perguntar: por que não conduzir o uso daquela região tradicionalmente rural para o estímulo às produções agrícolas, da tão falada agricultura familiar, para a produção do hortifruti comercializado para o próprio município por meio do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), de programas fomentadores da produção de água?!
- A região, em sua maior parte, que permanecerá tradicionalmente rural poderá se desenvolver exatamente com estímulos citados. Isso possibilitará a manutenção e quem sabe a recuperação dos mananciais destruídos pela falta de regras.
“ Espero que a omissão não continue, e agora urbano, o Paraíso tenha os serviços públicos garantidos como transporte, saúde, educação, coleta seletiva, telefonia ...”
- Espero que a omissão, digo, falta de fiscalização, não continue, e agora a pequena parte do Paraíso que se torna urbana, possa receber os serviços adequados, como todo o resto de Viçosa carece. Parte do Paraíso que já é urbana – inclusive os restaurantes, casas de festas, comércios e granjas para fins recreativos - passa a ter regras urbanas. A grande parte do Paraíso que permanecerá rural, pelo Plano, ficará protegida da ilegalidade da ocupação sem regras.
22 maio 2019
ERVÁLIA-MG
IDHM: 0,625 (médio) - MG: 0,731 (Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil, 2010)
5 % população extremamente pobre - MG : 3,49 (Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil, 2010)
Parece não haver regras para uso e ocupação do solo.
07 fevereiro 2019
DESCASO
Entra ano, sai ano, vemos os estragos das chuvas, sofremos comas tragédias pessoais.
Entra ano, sai ano, vemos os técnicos serem chamados para dar suas explicações;
Entra ano, sai ano, os prefeitos não impedem o crescimento urbano morro acima, rio abaixo;
Entra ano, sai ano, os prefeitos não garantem a fiscalização;
Entra ano, sai ano, os prefeitos rezam para que a próxima tragédia não seja em sua cidade.
Entra ano sai ano, morrem jovens em incêndios;
Cai ciclovia uma vez, cai duas vezes;
Arrebenta barragem uma vez, arrebenta barragem duas vezes...
Descaso, negligência, desrespeito...
Vergonha...
Foto:
https://noticias.bol.uol.com.br/entretenimento/2011/01/20/caminhos-da-reportagem-exibe-especial-sobre-as-chuvas-no-rio-de-janeiro.jhtm
22 julho 2017
26 junho 2016
Viçosa rurbana
20 janeiro 2015
Guido de Marliére: o semeador de cidades
Quem já ouviu falar de Guidoval ou Marliéria? Quem já ouviu esse nome em escolas e praças?
Para quem ainda não conhece a grande obra de Marliére, recomendo ler:
http://www.iau.usp.br/revista_risco/Risco16-pdf/02_art04_risco16.pdf
13 dezembro 2014
Os de lá e os de cá
Texto publicado no jornal Tribuna Livre, Viçosa, em 11/12/2014, a partir de outro publicado no jornal Panorama, Juiz de Fora, em 15 /12/2003
Tenho, de minha casa, uma visão muito ampla e bonita da cidade, com quase 270 graus de visão panorâmica. À noite, é ainda mais bela: veem-se luzes de várias intensidades e dispostas em variados desenhos. De longe, parece um conjunto organizado e harmônico. O primeiro plano é da área central, onde, como privilegiado moro. É uma área viva, animada, uma mistura saudável de usos. Há muitos prédios de vários pavimentos, as ruas são asfaltadas e as calçadas contínuas e acessíveis. Há pequenas praças e ruas com canteiros centrais, muito bem cuidados. Observa-se uma iluminação eficiente nas ruas, o que passa uma sensação de segurança aos inúmeros pedestres que vão para casa, para os que saem das escolas, dos cinemas ou dirigem-se aos bares.
Mais ao longe, lá no alto dos morros que circundam o centro, pode-se observar casas, quase todas ainda com sua alvenaria aparente. Ha manhas de vegetação, por vezes cobrindo um terreno inclinado demais para suportar uma construção. Cada uma dessas casas apresenta pontos de luz pálidos, que, somadas às outras, forma uma silhueta trêmula à noite. De lá, seus moradores têm uma bela vista. Mas têm mais dificuldades e problemas que os moradores mais privilegiados do centro. Não se pode dizer que a qualidade das vias, calçadas, iluminação e de suas próprias residências é tão boa quanto a da área central. Nem sempre é fácil alcançar o ponto de ônibus, nem sempre lá chegam com facilidade o caminhão da coleta de lixo, o caminhão de entrega de gás, uma viatura policial ou uma ambulância, quando mais se precisa. Nem sempre se pode ir a busca de atendimento médico, escola, creche ou ir à uma atividade de lazer ou de cultura. As limitações impostas pela idade, pelas necessidades físicas especiais, ou pelas financeiras, cerceiam das pessoas o direito de ir e vir, de viver plenamente a cidadania.
Um vento forte, um temporal, uma seca prolongada, uma chuva de granizo ou um sol a pino têm efeitos muito diferentes nesta parte da cidade. Enquanto uma assiste aos fenômenos meteorológicos de forma segura e confortável, pois sabe que vai passar; a outra se preocupa, fica sem água, sem energia elétrica, sem acesso por vários dias. Seus moradores às vezes adoecem, às vezes entram em pânico, às vezes têm a vida transformada por tragédias que não atingem os de cá.
Os de cá e os de lá moram na mesma cidade, embora vivam em realidades diferentes. Os de cá podem até se importar com o que acontece com os de lá, mas não trocariam de lugar. Nesta cidade, e em milhares de outras neste país, há esta divisão silenciosa, esta segregação perversa. Às vezes alguns dos cidadãos até escolhem se isolar nas áreas distantes, fecham-se em muros medievais, levam consigo e seus familiares os gastos públicos da construção de uma infraestrutura de vias, iluminação e saneamento; instalam eficientes sistemas de segurança; chegam e saem de lá com seus automóveis blindados. Atraem, para perto deles, mas fora de seus muros, bares, restaurantes, academias de ginástica e até shopping centers. Para isso, se precisar, expulsam os antigos moradores para longe, longe dos que mandam e os que consomem, longe ainda mais da cidadania. Dessa forma, longe até da nossa vista, esquecemo-nos deles, pelo menos até que alguns de nós precisemos de seus votos. Quem pode mudar essa situação? Quem quer mudar essa situação? Certamente não são os do lado de cá.
31 julho 2010
China: urbanização veloz
China - verticalização e gruas por todos os lados (Foto Ítalo Stephan, 2010)
O processo de urbanização chinês cresce cerca de 1% ao ano. Atualmente, cerca de 43% da população é urbana. E não para de crescer. O planejamento urbano é um tanto controverso, pois embora produza excelentes projetos de urbanização e paisagismo, passa o trator nos bairros tradicionais sem a menor cerimônia para construir prédios altíssimos apinhados de apartamentos pequenos. Esse tipo de planejamento só pode ocorrer nesse tipo de regime.
Hoje, pelo menos nos grandes bolsões industriais e comerciais – Shanghai, Beijing, Guangzhou e Honk Kong e em seus subúrbios predominam novíssimas e enormes construções de prédios residenciais, avenidas larguíssimas, elevados, viadutos. Não é a toa que grande parte das gruas do mundo estão lá. Aparentemente o planejamento urbano vem promovendo a manutenção e ampliação dos belíssimos jardins tradicionais, a criação de novos parques gigantescos, a excepcional qualidade do paisagismo das ruas, canais e largos. Há alguns problemas de mobilidade e acessibilidade nas estações de trem e metro, pois tem escadas demais e poucas ou nenhuma opção para pessoas com deficiência locomotiva. Há um sistema de metrô muito mais amplo que as cidades brasileiras, mas há linha inteiras sem ar condicionado. Mesmo com um número de automóveis próximo ao de um automóvel para cada cinco habitantes (em São Paulo é de 1 para cada 3) e um sistema viário de 6 anéis de muitas pistas, é comum ocorrer engarrafamentos enormes, mesmo em um sábado à tarde.
Os preços dos imóveis nas grandes cidades já é um assunto que preocupa no gigante país. Os especuladores, bancos e construtoras implementam suas regras sobre o uso do solo e se tornaram poderosos demais para resistir as políticas de controle do Estado chinês. Eles apostam no aumento dos preços e a bolha do mercado imobiliário não pára de crescer. Os preços para compra e aluguel se tornaram inviáveis para a maioria da população.
Segundo o jornal China Daily, a possibilidade de instabilidade social está se tornando real enquanto a questão da habitação e custo da terra pioram a cada dia. Mas não será surpresa se o governo conseguir contornar com habilidade esta situação, impondo com sutileza sua ideologia.
13 junho 2010
As cidades e os cursos d’água

Waterfont de Halifax, Canadá
As cidades quase sempre surgiram às margens de algum curso de água, braço de mar, lago ou represa. Até poucas décadas atrás, o crescimento urbano ocorreu de forma com que as edificações dessem as costas para portos, rios, córregos. Esses serviam para escoamento dos esgotos e águas pluviais e para descarte de lixo e entulhos. Não era comum deixá-los a vista. Havia sempre sujeira, mal cheiro que era comum esconder.
No Brasil, o Código Florestal (Decreto nº 23.793, de 23 de janeiro de 1934) estabeleceu que os cursos d'água tivessem faixas de proteção, áreas não edificantes ao longo dos seus leitos, com largura variável, proporcional à sua largura (30 metros para cursos com até 10 metros de largura, 50 metros para cursos de até 50 metros de largura e assim por diante). O Código considera de preservação permanente, as florestas e demais formas de vegetação natural situada nas nascentes, ainda que intermitentes e nos chamados "olhos d'água", qualquer que seja a sua situação topográfica, num raio mínimo de 50 metros de largura.
Em 1979, a Lei Federal 6766 estabeleceu a faixa de proteção de 15 m para novos parcelamentos, mas muitas cidades já tinham enclausurado, canalizado, "entubado" vários rios e córregos nas áreas urbanas e muitas construções já haviam invadido ou até mesmo alterado seus leitos. Isso propiciou muitos problemas nos períodos chuvosos.
Este conflito entre a legislação de parcelamento do solo federal e o Código Florestal gerou muitos problemas. Um caso irregular foi o plano Diretor de Viçosa, em que os veradores reduziram os 15 metros para 10, afrontando a legislação federal.
Nos nossos dias há uma lenta inversão no modo de lidar com os cursos d'água. Aos poucos, os rios ainda não canalizados recebem tratamento adequado, permanecem em canais abertos, correndo ao longo de margens arborizadas. Esses recursos naturais passam a ser de interesse urbano e paisagístico. Em algumas cidades os planejadores urbanos reverteram a situação, com projetos de limpeza e saneamento e promoveram a construção de áreas verdes, de recreação que se transformaram em pontos turísticos, em cartões postais. Assim foram construídos os "waterfonts" e "riverfronts" como os de Baltimore, Halifax, Boston, Edinburgo, Belfast, Paris ou no famoso exemplo em Seul, em que o rio Cheonggyecheon foi desenterrado, uma via expressa que corria por sobre ele foi demolida e o local se tornou um dos principais pontos de encontro da capital coreana. Pode-se passear ao longo de um belo regato, acompanhado de jardins e praças.
No Brasil já há uma tendência de tratar os rios e incorporá-los a paisagem urbana e ao convívio com os cidadãos. Aos poucos vão sendo retirados os esgotos e a chance da natureza recuperar-se.
Há muitas cidades com construções invadindo as margens dos rios. Isso, no futuro deverá ser corrigido, impedindo-se as reformas e ampliações, resgatando aos poucos as margens aos rios.
Um dia os cursos d'água brasileiros deverão estar recuperados, exercendo seu papel de drenagem das chuvas e totalmente integrados à vida das cidades. Suas condições de abrigar a vida deverão trazer novamente peixes e animais ao longo das matas ciliares. Rios como o Sena, em Paris, o Tamisa, em Londres, já tiveram essa recuperação. Espera-se que um dia chegue a vez do Tietê, em São Paulo, do Rio das Velhas, em Belo Horizonte ou do Ribeirão São Bartolomeu, em Viçosa.
Foto: http://www.destinationhalifax.com/images/gallery/Halifax%20waterfront.jpg
22 maio 2010
Cidades e contrastes: índices de desenvolvimento
O País precisa de planejamento para corrigir tantas diferenças.
Segundo o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal - IFDM, divulgado em agosto de 2009, as 5 melhores cidades brasileiras são: São Caetano do Sul (0,9524), São José do Rio Preto (0,9182), Indaiatuba (0,9177), Araraquara (0,9172) e Jaguariúna (0,9111), todas de São Paulo. As 27 primeiras são de São Paulo.
As 5 piores são: Santa Luzia (5560º lugar -Bahia- 0,298), Uiramutã (5559º lugar - Roraima – 0,3141), Sebastião Barros (5558º lugar -Piauí - 0,3178), Nova Esperança do Piriá (5557º lugar – Pará - 0,3227) e Guaribas (5556º lugar – Piauí – 0,3323).
A melhor cidade mineira – Itabira – ficou apenas em 73º lugar. Viçosa estava apenas em 75º em Minas e 902º no Brasil.
Os critérios usados na formação do índice:
Emprego & Renda:
- Geração de emprego formal
- Estoque de emprego formal
- Salários médios do emprego formal
Educação
- Taxa de matrícula na educação infantil
- Taxa de abandono
- Taxa de distorção idade série
- Percentual de docentes com ensino superior
- Média de horas aula diárias
- Resultado do IDEB
Saúde
- Número de consultas pré-natal
- Óbitos por causas mal definidas
- Óbitos infantis por causas evitáveis
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