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30 março 2010

Novo distrito industrial?

Não é de fácil entendimento a proposta que ora corre na mídia sobre a proposta da criação de um novo distrito industrial para Viçosa. A sua concepção coincide de forma extraordinária com a estabelecida para o já em implantação Parque Tecnológico da UFV. Ou seja, não parece haver lógica a criação de um novo distrito nos mesmos moldes, uma vez que o Parque está em um adiantado processo de obras. As idéias de aproveitar o conhecimento gerado na UFV, de incentivar o surgimento de uma indústria de base tecnológica cabem exatamente no Parque em construção.

Não estará acontecendo um processo de descaso com um alto investimento próximo a ter condições de receber as indústrias de base tecnológica? Por que iniciar novamente a criação de comissão para estudar a viabilidade de algo que já está ocorrendo? Por que não juntar, finalmente, as forças e criar uma parceria forte entre o município e a UFV?

Por que não juntar esforços para melhorar uma cidade suja, esburacada, sem passeios decentes, sem nenhuma generosidade com pedestres e ciclistas? Porque não trabalhar para recuperar e preservar o patrimônio cultural que está sob sua tutela? Ou para melhorar o ensino oferecido pelo município, que ganhou inadequadamente o lema “Cidade Educadora”? Por que não vetar alguns projetos da Câmara Municipal que vão aos poucos destruindo o Plano Diretor? Por que não exigir o funcionamento do Conselho Municipal de Planejamento - Complan, desativado por interesses da elite construtora ?

Me parece que não há, ainda, um planejamento adequado e idéias concertadas entre as secretarias municipais e o Instituto de Planejamento Municipal - IPLAM e mesmo com a UFV. Há, de vez em quando alguma idéia "brilhante" lançada no ar, sem embasamento ou conexão. Viçosa merece mais que isso!

Em Viçosa cabe sim um projeto de distrito industrial para indústrias que não se encaixam nos moldes propostos para o Parque Tecnológico e repetidos na intenção dos dirigentes municipais. O que temos é um arremedo de distrito.

A proposta em dicussão carece de melhor explicação.

04 junho 2009

O exemplo de Seul

Quando vemos o que foi feito em Seul, capital da Coréia do Sul, há cerca de quatro anos, podemos acreditar que às vezes a capacidade do ser humano ultrapassa a de apenas destruir o ambiente ou de construir monstruosidades de concreto e asfalto. A demolição de um gigantesco viaduto resgatou o leito de um rio e propiciou a criação de um dos mais belos parques lineares urbanos do mundo, frequentável durante o dia e à noite.

Seul, com mais de dez milhões de habitantes, é uma das maiores cidades do mundo. Destaca-se nessa metrópole uma radical e revolucionária obra de revitalização urbana. Construída por cima de um rio poluído, uma antiga via expressa elevada com seis pistas, onde transitavam mais de 160 mil carros por dia, promoveu a deterioração de uma grande área urbana. O Prefeito Lee Myung Bak liderou o projeto para demolir a autopista e recuperar o ribeirão, criando um parque linear com 400 hectares, de 5.800 metros de comprimento por cerca de 80 metros de largura. Abriu-se passagem novamente ao leito natural do ribeirão com suas águas devidamente tratadas e purificadas. Após uma transformação surpreendente, foi entregue à população um espaço de alta qualidade, um bucólico parque urbano que trouxe para sua vizinhança uma série de atrativos como locais de trabalho, lojas, restaurantes e cafés. À noite, a população tem um parque intensamente iluminado e seguro, e pode passear por calçadas, ao lado de anfiteatros, jardins, cascatas e esculturas. Pode-se atravessar o ribeirão por pontes ao nível das ruas laterais ou por caminhos de pedras quase ao nível da água corrente. Muitas pessoas sentam-se às margens para contemplar as águas límpidas.

O prefeito, eleito em 2002, enfrentou forte oposição dos residentes e das pessoas preocupadas com os custos. Mesmo assim, em 2003, iniciou a demolição do elevado e a limpeza do ribeirão Cheonggyecheon. Esse ambicioso projeto ecológico custou cerca de U$350 milhões para reabrir o curso d’água, 44 anos depois de encoberto pelo concreto do desenvolvimento urbano caótico e insustentável, voltado para o automóvel. O carro particular cedeu lugar para o transporte coletivo (que teve projetos de melhoria implementados) e para as pessoas que agora convivem com um cenário inteiramente amistoso e saudável. Os efeitos ambientais da obra foram notáveis, pois um rio possui efeito climatizador natural: aumenta a ventilação e abaixa a temperatura. Descobriu-se que a temperatura nas proximidades do parque caiu em média 3,6 graus Celsius.

O projeto de revitalização urbana em Seul é um exemplo das inúmeras possibilidades do que tecnologia e vontade política são capazes de gerar benefícios para a população e o ambiente. Não custa nada fazer mais um exercício de utopia para Viçosa, que tem seu ribeirão sujo e suas margens invadidas. Viçosa não tem milhões de dólares, mas também não tem autopistas, nem milhões de habitantes. Para termos um parque linear ao longo do São Bartolomeu não é preciso demolir elevados, apenas a mesmice.