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22 março 2026

SALVE-SE QUEM PUDER


 SALVE-SE QUEM PUDER

Mais uma vez, depois de mais uma tragédia ambiental de grandes proporções, vem a imprensa apresentar os experts em meio ambiente, para que expliquem detalhadamente o que aconteceu e o que deveria ser feito. Ano a ano, fatalidade a fatalidade, isso se repete. Os especialistas vão falar das mesmas causas: falta de planejamento urbano e ambiental; falta de fiscalização que impeça ocupações; negligência e irresponsabilidade dos governantes; falta de recursos para obras e para a Defesa Civil. Vão mencionar a desobediência ao Código Florestal Brasileiro, que existe desde 1965; os inúmeros estudos e mapas de áreas suscetíveis a deslizamentos e inundações. Vão alertar para a flexibilização criminosa da nova versão do Código Florestal Brasileiro.

E mais uma vez, passadas as maiores dores, contabilizados os prejuízos, deixadas as saudades e diminuídos os interesses na imprensa, nas próximas tempestades, virão novas tragédias, nos mesmos locais, ou aleatoriamente em qualquer cidade, em qualquer região. Já ocorreu no Rio Grande do Sul, na Serra de Petrópolis, na Serra do Mar, em Recife, em Salvador, na Baixada Fluminense. A próxima pode ser a nossa cidade, ou a de qualquer um de nós. 

Em Juiz de Fora, mesmo com as obras realizadas, essas não foram suficientes para evitar a tragédia. Da lama à poeira, partes de bairros estão interditadas, casas inteiras desabaram, bairros inteiros invadidos pelas águas. O saldo são mais de 60 mortos, milhares de desabrigados, milhões de reais em prejuízos materiais e as doenças decorrentes, como diarreia, hepatite, leptospirose etc. Vale dizer que nenhuma outra cidade suportaria tamanho fenômeno, com o montante de chuvas acumuladas. Vejam o que aconteceu com Ubá, e aqui abro um parênteses, pois a lei dessa cidade vizinha permite a construção de prédios praticamente dentro d’água; o que é uma aberração, um crime, uma exposição de pessoas a riscos dos quais já presenciamos há décadas. 

É preciso dizer, alertar que, se as chuvas da quantidade que vieram, caíssem em Viçosa, varreriam desastrosamente o que estivesse no caminho dos córregos Conceição e Santo Antônio e do ribeirão São Bartolomeu. Nem mesmo as lagoas do câmpus da UFV seriam garantia de segurança. Há encostas muito perigosas em Viçosa, áreas de risco mesmo, como a que segura o bairro Belvedere, a que está em cima da rua Milton Bandeira, as encostas do Bom Jesus e Estrelas, do Nova Viçosa, São Sebastião, Amoras, Morro do Escorpião.   Tudo isso já foi mapeado pela Defesa Civil e no Plano Diretor. 

Os desastres ambientais reforçam a urgente necessidade de adaptações das cidades brasileiras aos eventos climáticos extremos. São necessárias obras, desocupação, realocações de moradias, e, desde já, impedir que as ocupações em áreas de risco continuem. Os governantes empurram as responsabilidades uns para os outros. Possivelmente, alguns deles sequer acreditam nas evidentes mudanças climáticas. Os governantes não destinarão recursos prometidos, ou mal iniciarão as medidas mitigadoras. Com o tempo, esquecerão, pois é ano de eleição, ou pior, vão usar imagens dos dramas para tentar ganhar votos. Por outro lado, as pessoas jamais esquecerão a perda de parentes, de suas casas, das raízes culturais, das penosas reconstruções da vida. O planejamento urbano e os cuidados ambientais serão novamente assuntos para serem lembrados em longas matérias jornalísticas, depois de novas mortes e de grandes perdas materiais. Não pode mais ser um salve-se quem puder. A situação é intolerável e desumana; não permite a contínua negligência crônica de quem nos governa.


26 fevereiro 2026

QUE VENHAM OS EXPERTS


Mais uma vez, depois de mais uma tragédia, vem a imprensa apresentar os experts em meio ambiente, para que expliquem detalhadamente o que aconteceu e o que deveria ser feito. Ano a ano, fatalidade a fatalidade, isso se repete. 
Vão falar das mesmas causas: falta de planejamento urbano e ambiental;  falta de fiscalização que impeça ocupações; negligência e irresponsabilidade dos governantes; falta de recursos para obras e para a Defesa Civil. 
Vão mencionar o Código Florestal Brasileiro, que existe desde 1965; os inúmeros estudos e mapas de áreas suscetíveis à deslizamentos e inundações. Vão alertar para a flexibilização criminosa da nova versão do Código Florestal.
Mais uma vez, passadas as dores e diminuídos os interesses na imprensa, virão novas tragédias, nos mesmos locais ou aleatoriamente em qualquer cidade, qualquer região, que pode ser a nossa. 
Os governantes não destinarão recursos ou mal iniciarão as medidas mitigadoras. Possivelmente alguns deles sequer acreditarão nas evidentes mudanças climáticas.
O planejamento será novamente assunto para ser lembrado em longas matérias jornalísticas,  depois de novas mortes e de grandes perdas materiais. 
Salve-se quem puder.

Foto: https://agenciamg.com.br/2026/02/24/chuvas-juiz-de-fora-mortes-alerta/


11 janeiro 2026

PARA ONDE IREMOS DAQUI?

 


Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa-MG, em 8 de janeiro de 2026

Chegamos ao fim de 2025. Um ano, como vários outros, pleno de fatos para refletir e lamentar. Guerras intermináveis, como as em Gaza, na Etiópia e na Ucrânia, no Sudão e no Iêmen; insurgências do Boko Haram e islâmicas no Magrebe... Vivemos um xadrez político internacional nas mídias, com muitas fake news no cotidiano e uma polarização em crescimento, tendo em vista 2026. A extrema direita avança em muitos países, com apagamento das lições da História. A soberania dos países tem sido ameaçada pelas potências, vide o que aconteceu no Irá e agora  na Venezuela.

O meio ambiente, mais uma vez como preocupação, continua ignorada pelas grandes potências. Mais um ano em que se bate recordes em extremos de temperaturas, em número de tufões, ciclones, furacões, tempestades, enchentes e secas prolongadas. Cada ano será o ano mais frio dos próximos cinquenta. Prejuízos enormes em vidas e em posses materiais são contabilizados em gráfico ascendente.  2025 foi o anos da primeira vez que a média de temperatura s ultrapassou o limite estabelecido no Acordo de Paris de 2015, que visa limitar o aquecimento a no máximo 1,5 graus Celsius. Tudo indica que o limite continuará a subir.

O planeta Terra vem sinalizando, pedindo socorro, já há algumas décadas, aos humanos e os seus governantes, que negam ou empurram para 2030, que já está logo ali, ou para anos futuros, postergando ações necessárias conhecidas que já estão defasadas. Representantes de países se encontram, discutem, mas chegam a pequenos acordos; geram indicadores para adaptação futuros, sem abrir mão das inexauríveis exigências capitalistas. Deixam para que nossos filhos e netos resolvam. Saem desses encontros sem compromissos com a redução do uso dos combustíveis fosseis. Criam metas sem ambição, abaixo do da urgência científica. Isso tudo configura um quadro de insustentabilidade. As diferenças sociais se ampliam.

O ser humano influencia a natureza desde o estabelecimento em sociedades. Sabemos, há muito que, para desenvolver o caminho da sustentabilidade, são necessárias grandes mudanças na forma de pensar e em como usar os recursos naturais. Muitos de nós temos consciência que os recursos naturais não são ilimitados e que eles estão se esgotando, e tudo isso vem acontecendo, devido a ação irresponsável dos seres humanos. Há muito conhecemos os “R” s - reciclar, reutilizar, reduzir, repensar, reintegrar, restaurar... Praticamos vários deles, mas isso é insuficiente. Podemos e devemos nos habituar a ações sustentáveis individualmente ou em pequenos grupos, mas as grandes reformas estão nas mãos da dúzia de poderosos que manda no planeta. 

As cidades, maiores invenções humanas, são os ambientes de maior risco, pois concentram pessoas. Inundações, deslizamentos, incêndios e destruições de imóveis apagam cada vez mais vidas e custam cada vez mais caro. Qualquer que seja o porte das cidades, os desafios para planejadores, gestores e construtores serão como se adaptar a esses extremos. Em contrapartida, absurdamente, na contramão, a legislação ambiental fica cada vez mais fragilizada pela voracidade ignorante do capital, que constrói cada vez mais próximo dos cursos d’água, impermeabiliza as cidades, invade encostas e desmata ao se estender sem fim em direção às áreas rurais.

Os recursos que chegam são politiqueiros. Os governos municipais estão quase totalmentel dependentes de obscuras emendas parlamentares, nem sempre prioritárias para a população. Essas não chegam para saneamento - uma vergonha nacional -, para melhorias de escolas e postos de saúde, para pagar melhor professores, para regularização fundiária ou para a estruturação de um planejamento territorial adequado. Nosso destino é incerto. O antropoceno e o capitaloceno, marcas dos tempos atuais, podem não durar tanto quanto os poderosos querem. Poderemos ser felizes em 2026... 2029... 2038... 2040...!?


Foto: https://umsoplaneta.globo.com/clima/noticia/2021/04/04/o-que-sao-as-mudancas-climaticas.ghtml

18 maio 2025

RIOS ESCONDIDOS

Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa-MG, em 15/05/2025

Muitas cidades brasileiras cresceram ao longo de córregos e rios e, desta forma, acabaram escondendo-os entre prédios, muros, asfalto e concreto. Infelizmente, só lembramos desses cursos d’água quando ocorrem as enchentes, os alagamentos nas garagens subterrâneas ou nos quintais; quando se abrem crateras nas ruas, que engolem carros e pessoas. Esquecemos que, além das generosas leis da natureza, há as vulneráveis leis dos humanos. 

As leis da natureza têm seus próprios ditames, seu próprio tempo, seus comportamentos às vezes exacerbados para nós. Os rios reivindicam os leitos e reclamam das formas com as quais suas margens são molestadas. A natureza produz água, esse precioso líquido, faz com que esse flua por fios d’água, córregos, rios até alcançar o mar. Generosamente, há milênios, nos fornece água para que a usemos nas plantações, nas criações e nas casas. Houve época em que os rios nos forneceram peixes e caças. Muitas pessoas ainda vivas contam suas aventuras da infância, de pesca, natação e lazer junto às margens. Povos indígenas cultuam e respeitam os cursos d’água, chegando até mesmo os considerá-los como parentes.

As leis elaboradas pelos humanos “civilizados” vieram para tentar proteger os rios, desde suas nascentes até suas margens. No entanto, essas leis são frágeis, até mais frágeis que os próprios rios; são modificadas, sujeitas à ignorância e à ganância dos homens. Os rios sofrem muito por isso; muitas vezes, tiramos deles mais água do que eles são capazes de fornecer; ou os enfraquecemos ao ponto de não nos serem mais úteis. Destruímos suas nascentes; retiramos sua vegetação marginal. Neles, descartamos esgotos, lixo, entulhos, bananeiras, sofás, todo tipo de coisas. Usamos muito de suas águas para misturá-las ao pó de ferro, para encher os minerodutos e mandar essa mistura para os portos.  Com o crescimento urbano, construímos muito perto dos cursos d’água, às vezes, os esprememos, ou os empurramos para os lados. Neles jogamos toda água das chuvas que não foram absorvidas, pelos que um dia foram quintais e jardins; agora impermeabilizados, substituídos por concreto e asfalto.  De suas margens, retiramos areia e madeira, extraímos sua cobertura vegetal. Muitas vezes, retificamos seus leitos e chegamos ao ponto de entubá-los; de ignorar que há inúmeros cursos d’agua passando sob nossos pés.

Há muitas consequências dessa negligência para nós, os humanos. Tubulações que passam sob as vias que cruzam os córregos e rios são frequentemente mal dimensionadas ou danificadas. Águas poluídas são mais difíceis e caras de serem tratadas. Cursos d’água são quase impossíveis de serem limpos, desassoreados, desobstruídos ou de terem suas matas ciliares (as que ainda restam) limpas. Isso porque não deixam acesso para que os órgãos de saneamento levem máquinas, caminhões e equipamentos de manutenção. Há mau cheiro, proliferação de insetos, animais nocivos, doenças; sem contar a morte dos peixes que ainda resistem. Nos períodos chuvosos, quando os rios reclamam seus leitos, ocorrem enormes prejuízos materiais e humanos provocados pela força das águas. Nesses períodos adversos, culpamos os prefeitos da hora; exigimos das autoridades providências; buscamos exaustivamente, nos experts em meio ambiente, as explicações. Depois tudo isso passa, é esquecido, até a próxima estação chuvosa, até o próximo prefeito, até o próximo vazamento de resíduos da mineração. 

25 abril 2025

DENTRO D'ÁGUA

  O córrego da Conceição é um filete em períodos de maior seca, mas é o escoadouro de vários bairros (Ramos, Clélia, Fátima, Conceição, Bom Jesus). 

Uma chuva de volume razoável leva a água para poucos metros das construções e casas.
Pode isso Prefeitura de Viçosa? 
É urgente trocar as manilhas que seguram as águas, elas não dão conta de deixar as águas escoarem. 
É urgente que a Prefeitura faça uma limpeza do córrego e de suas margens em toda sua extensão. 
Tem gente que já perdeu terreno e que tem suas casas ameaçadas. 

Tem prédios, farmácias, comércio e postos de combustíveis no caminho. 
A falta de cuidado pode trazer muitos prejuizos.
 Quer impacto ambiental maior que isso? 
Quem mora ao longo do córrego vai dormir bem enquanto a Prefeitura não tomar providências?
Cuida disso, Prefeitura!

18 março 2025

MINERAÇÃO PREDADORA

 



Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa-MG, em 13/03/2025

Minas Gerais, o próprio nome já deixa claro onde estamos. Desde o século XVII, o homem branco vem cavando, furando, desmanchando nossas montanhas, assoreando nossos rios e sugando nossas águas. A voracidade dessas ações não para de decrescer. Multiplicaram-se as represas de resíduos de mineração. Algumas dessas barragens já romperam e desencadearam tragédias com sérias consequências ambientais (Miraí, Nova Lima, Bento Rodrigues, Brumadinho). Várias outras barragens (cerca de 45) colocam populações inteiras em estado de alerta. Em geral, tiram do nosso solo ricos minerais, machucam o meio ambiente, mas não nos devolvem desenvolvimento. Quando anunciam que vão minerar em algum município, criam enormes expectativas para os moradores, como a valorização das terras para desapropriação nas áreas a serem mineradas, os empregos a serem criados e a riqueza que vão promover. Mas não é isso que acontece; a realidade pode ser muito diferente. Em troca da atividade, vem uma participação submissa dos territórios, a degradação ambiental, danos à saúde coletiva (como câncer, tuberculose, asma, entre outros) e os riscos à sustentabilidade socioambiental, com desflorestamento, redução da qualidade dos solos etc.

Uma prova disso é que, Jeceaba, sede de uma multinacional gigante, tem a 12ª maior PIB per capita do país, mas isso não se reflete na qualidade de vida do município, e muito menos nos municípios vizinhos. Apenas 34,8% dos domicílios de Jeceaba estão conectados à rede de esgoto e 71% à rede de abastecimento de água. Em Itamarati de Minas, pertinho de Cataguases, a mineração de bauxita gerou euforia; os moradores ampliaram restaurantes e equiparam oficinas para atender ao processo de mineração. Sonharam com o desenvolvimento batendo à porta. Em poucos anos, a empresa abandonou a mina, frustrou a população, deixou de herança sonhos destruídos e uma barragem de contenção de rejeitos com alto risco de rompimento. Os Índices de Desenvolvimento Humano (IDH-2022) desses dois municípios (0,661 e 0,688, respectivamente) são muito inferiores ao de Minas Gerais (0,731) e ao do Brasil (0,760).

Vejamos o que aconteceu na vizinha Teixeiras. O início da exploração de uma jazida de magnetita, na comunidade de São Pedro, na divisa com Pedra do Anta, acendeu todo tipo de expectativa de progresso para a região. A mineradora chegou ao local vendendo ilusões, o que acabou gerando mal-estar entre os moradores, já que alguns compraram a ideia e não admitiam que os demais pudessem atrapalhar o empreendimento. Os agricultores da região abandonaram a agricultura e muitos deles alugaram suas terras por valores irrisórios para as mineradoras, ou foram obrigados a cedê-las por força de liminares. Em poucos anos, a mineradora teve suas atividades suspensas e trouxe frustração para os dois municípios. Em julho de 2023, duas das quatro áreas de exploração foram embargadas pela Supram-ZM (Superintendência Regional de Meio Ambiente da Zona da Mata), em razão de crimes ambientais, como desmatamento ilegal de mata nativa, exploração de área sem licenciamento ambiental e deposição de rejeitos sem licenciamento. Deixaram para trás propriedades sem acesso à água, encostas erodidas e processos judiciais de indenização por falta de fiscalização por parte do Estado.

A mineração em Minas Gerais traz lucros imensos para as grandes empresas multinacionais, mas trata o seu território sem maiores cuidados e às vezes parece encarar a população como meros obstáculos fáceis de lidar ou remover. A mineração é importante, é necessária, mas não traz a riqueza que tanto apregoa; traz dependência dos valores por tonelada que o mercado mundial dita.  A mineração vende nossas riquezas a baixo custo, suga nossa água apenas para misturá-la com pó de minério e levá-la por minerodutos até os portos, deixa barragens eternamente ameaçadoras, leva vidas, desmancha montanhas e sonhos, e polui nosso ar. Triste legado. Minas merece mais!

21 fevereiro 2025

DESPOLUIR RIOS

 


Os rios são veios de vida, mas estão entre os ecossistemas mais ameaçados do planeta. Restaurar e despoluir esses cursos d’água não é luxo, é estratégia fundamental para garantir água limpa, reduzir enchentes e enfrentar secas cada vez mais intensas e frequentes.

Isso não é só papo de ambientalista: a própria Organização das Nações Unidas (ONU) incluiu essa missão nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

Ver em: https://www.facebook.com/aguasualinda

16 fevereiro 2025

PARQUES LINEARES EM VIÇOSA

Parque linear do Córrego Grande, em Florianópolis

Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa-MG, em 13 de fevereiro de 2025

O Plano Diretor de Viçosa (Lei nº 3.018/2023), precisa ser lembrado para haver a possibilidade de que seja aplicado. É lei. Traz medidas necessárias para a proteção do meio ambiente. O plano é abundante em preocupação com o tema. Foi criado um Sistema de Áreas Protegidas, Áreas Verdes e Espaços Livres. É um sistema formado pelo conjunto das áreas enquadradas em categorias protegidas pela legislação ambiental dos três níveis federativos. Essas são áreas prestadoras de serviços ambientais, das diversas tipologias de parques de logradouros públicos. O sistema criado considera de “interesse público para o cumprimento de funcionalidades ecológicas, paisagísticas, produtivas, urbanísticas, de esporte e lazer e de práticas de sociabilidade”. O Plano Diretor traz também a preocupação com o estabelecimento, junto com os municípios da microrregião de Viçosa, de políticas integradas para a redução e de erradicação de riscos de desastres naturais.

O parque linear é, ao mesmo tempo, uma forma de preservar o meio ambiente e de gerar vetores recreativos em ambientes urbanos. Um parque linear propicia a regeneração do ambiente urbano e da paisagem local; agrega em um lugar carente de espaços para lazer, descanso e relaxamento; facilita a convivência e maior sociabilidade entre as pessoas da área diretamente afetada e de seu entorno; propicia aos moradores espaços para praticar atividades físicas. Tem, também a função de permitir a educação ambiental in loco. Para o arquiteto e urbanista professor da USP, Alexandre Panizza, “investir em parques lineares é uma estratégia inteligente para tornar nossas cidades mais sustentáveis, saudáveis e acolhedoras”. Para ele, os parque lineares “contribuem para a mobilidade urbana quando têm faixas para pedestres e ciclistas”. São vários parques conhecidos no Brasil e no mundo, como o Parque Urbano da Orla do rio Guaíba, projetada pelo arquiteto e urbanista Jaime Lerner; o Parque Linear do Córrego Grande, em Florianópolis; o Parque Linear da Vila Princesa Isabel, na Zona Leste da cidade de São Paulo e o parque do rio Cheonggeyechon, em Seoul, Coréia do Sul.

Uma das medidas criadas pelo Plano Diretor é o Parque Linear, citado como “uma zona corredor verde que se implanta acompanhando trajetos de cursos d’água e fundos de vale”.  O parque tem o potencial de induzir “mobilidade urbana, melhorias na drenagem da água pluvial e é importante para a recuperação e a preservação dos recursos naturais, conservação da biodiversidade e formação de corredores ecológicos”. O Plano Diretor de Viçosa propõe a implantação dos seguintes parques lineares: na Área de Proteção Ambiental do ribeirão São Bartolomeu; que inclui o bairro Romão dos Reis; em Nova Viçosa e Posses; de São José do Triunfo ao aeródromo e do Parque Tecnológico (Centev) à ETE-Barrinha. Se implantados, ganharíamos muito em relação à qualidade de vida. Lembro que já temos um parque linear, que atravessa o Campus da UFV, ao longo do curso do ribeirão São Bartolomeu, com suas belas represas.

O Plano Diretor de Viçosa aponta caminhos, mas é apenas uma lei. “Apenas” no sentido de que precisa ter a iniciativa da gestão municipal para sair do papel e para promover as mudanças e melhorias.  Reflito aqui sobre a obra "O cidadão de papel" do escritor Gilberto Dimenstein, na qual o autor afirma que a legislação brasileira é ineficaz, visto que, embora aparente, seja completa na teoria, não se concretiza na prática. Transformar o previsto no Plano é um desafio dos maiores, mais do que nunca necessário para enfrentar o que virá em termos de mudanças climáticas e de eventos climáticos extremos. Se ao menos alguns dos parques previstos saírem do papel, os viçosenses agradecerão.

Foto: https://www.nsctotal.com.br/noticias/parque-linear-do-corrego-grande-comemora-seus-10-anos

26 janeiro 2025

TRAMA VERDE E AZUL

Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa-MG, em 23/01/2025.
Co-autoria de Nádia Camacho


Mapa com a Trama Verde e Azul, parte do Plano Diretor de Itatiaiuçu, MG

Não se trata de uma conspiração política, mas sim de uma metodologia de aplicação de medidas direcionadas para lidar com o nosso judiado meio ambiente. Com o cenário atual de intensa urbanização, trazer a natureza de volta para as cidades, torna-se, portanto, um desafio para o campo do planejamento e para a gestão de nossas cidades. As mudanças climáticas são uma realidade apontada por especialistas há décadas. O Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (2023) apontou o aquecimento global irreversível, e o cenário se agrava mundialmente com as ações antrópicas. As consequências se manifestam em desastres no meio rural (queimadas, secas, alagamentos) e no urbano (deslizamentos de encostas, enchentes, ampliação dos fenômenos das ilhas de calor, epidemias etc.), sobretudo entre as populações mais vulneráveis. A urbanização brasileira tem causado perdas de patrimônio ambiental e cultural, com descaracterização das paisagens, segregação socioespacial e dispersão urbana, entre outros fenômenos.

Os eventos extremos tendem a aumentar a curto prazo, com perdas e danos em cascata para a subsistência, saúde, valores culturais, segurança alimentar e da água, tanto em áreas costeiras como em regiões montanhosas. O Relatório Mundial das Cidades aponta urgência de avanços para a mitigação e reversão do quadro. Os gestores locais têm um papel fundamental na criação de estratégias ambiental e climática, de planejamento e governança, articuladas e orientadas para a justiça ambiental. Faz-se necessário recuperar ambientes rurais e urbanos, bem como conectá-los de maneira sustentável e socialmente justa, aspectos esses tratados pela Trama Verde e Azul.

O conceito se baseia na preservação vegetal (verde) e no uso da água de áreas hídricas (azul) de forma entrelaçada, harmônica e articulada. Além disso, orienta o planejamento territorial do município e microrregional, de forma a possibilitar a articulação entre uso e ocupação do solo com a conservação ambiental, vinculando-os a aspectos socioculturais). Sua implementação requer o fortalecimento de instrumentos de planejamento e a compreensão e sensibilização da urgência climática, por parte dos gestores e da população em geral. A Trama traz como pontos positivos a remoção de poluentes do ar através de árvores, paredes verdes e telhados verdes; a redução dos níveis de ruído através de paredes verdes; a redução das emissões de carbono, através dos telhados verdes; a redução do dióxido de carbono com o uso da agricultura urbana e a redução da pegada ecológica.

A Trama Verde e Azul surgiu como uma política de recuperação de áreas degradadas pela mineração, na França, e inspirou experiências brasileiras, como a da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), que busca preservar áreas verdes e hídricas, de forma a promover benefícios para a saúde pública, qualidade do ar e da água, reduzindo os efeitos das mudanças climáticas. Na RMBH, criou-se um incentivo econômico para estimular o setor imobiliário a construir aplicando algumas técnicas da Trama nas edificações, como caixas de captação de água pluvial, telhados verdes e jardins drenantes. Busca-se melhorar a permeabilização do solo e a redução das ilhas de calor, bem como mitigar as consequências das inundações.

A Trama Verde e Azul deveria cobrir o planeta Terra. Se bem implementada, é um aliado importante para enfrentar o que já está entre nós, que já sentimos na pele e no bolso. Pode ser aplicada aqui mesmo nas nossas cidades, nos nossos municípios e microrregiões. No entanto, ela é dependente da quebra dos paradigmas da ignorância e da negligência dos governantes, do predomínio das abordagens tradicionais à governança, da aplicação de legislação e de ações das formas corretas e de forma democrática. Caso contrário, se não levada a sério, será mais um rótulo teórico.


 

21 outubro 2024

03 julho 2024

VETO CORRETO

Prefeita veta projeto que autoriza construtoras a usarem áreas públicas e preservadas para instalar reservatórios contra enchentes em Juiz de Fora 

https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2024/07/02/prefeita-veta-que-autoriza-construtoras-a-usarem-areas-publicas-e-preservadas-para-instalar-reservatorios-contra-enchentes-em-juiz-de-fora.ghtml

09 junho 2024

PROJETO DE LEI DANOSO PARA JUIZ DE FORA


Presente para os construtores, prejuízo para a cidade 

Proposta absurda aprovada pela Câmara Municipal de Juiz de Fora.

Condomínios  poder tão usar  áreas públicas e de preservação permanente (APPs) para obras de contenção de enchentes. Em nome defesa do meio ambiente? Boa coisa não é! Está errado! 

Não houve debate público! Especialistas não foram ouvidos para discutir a proposta!

https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/edicao/2021/02/08/videos-tudo-sobre-a-zona-da-mata-e-campos-das-vertentes.ghtml#video-12655145-id

19 maio 2024

CAMINHOS OPOSTOS



Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa-MG, em 16 de maio de 2024.

Estamos vivenciando mais uma tragédia ambiental a superar em amplitude as demais como as de Petrópolis (2022, com 235 mortes), Região Serrana do RJ (2011, com 900 mortes) e litoral Paulista (2023). Desta vez atingiu, com uma força inédita, gigantesca, praticamente um estado inteiro, e os prejuízos, as mortes e as consequências ainda estão sendo contabilizados. Ainda temos de engolir absurdos. Não, não foi o show da Madona (acusada de satanista) o culpado pelo que aconteceu no Rio Grande do Sul. Não foi a ira do demônio que ocasionou tantos dramas; foi a contínua teimosia e a ignorância dos humanos que potencializaram os estragos. 

Mais uma vez, após cada tragédia, os telejornais inundam seus horários com opiniões de especialistas da área ambiental, da engenharia ou do planejamento urbano. Esses especialistas são muitas vezes vistos como curiosidades, cientistas folclóricos, ecochatos, inteligentes, mas um tanto exagerados. Esses vêm repetindo, sem serem levados a sério, sobre a falta planejamento, de controle do uso do solo e da falta de fiscalização; apontam a existência de leis e, ao mesmo tempo, a negligência irresponsável dos governantes. É um ciclo ininterrupto: tragédia, opiniões dos especialistas, esquecimento, volta ao normal... tragédia, opiniões dos especialistas, esquecimento, volta ao normal...

O país tem um aparato legal desde 1965, com o Código Florestal Brasileiro (Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965), alterado pela Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012, que possibilitou uma perigosa flexibilização da legislação ambiental. As modificações na nova redação tiveram nítido caráter de abrandamento da preservação ambiental e de satisfação aos interesses econômicos. Consequentemente, tais alterações tornam significativamente mais vulneráveis as áreas de preservação permanentes – APPs - situadas em zonas urbanas. Essas APPs, que determinam a proteção dos cursos d’água, são ignoradas; as cidades crescem sem respeitá-las, eventualmente com uma ou outra inundação, logo esquecida pela população, pelos prefeitos e pela imprensa. Basta abrir o Google Earth e ver como nossas cidades cresceram às margens dos rios, às vezes, estrangulando-os, escondendo-os sob ruas e construções. Nossa ampla legislação urbanística (lei Federal 6766/79, planos diretores, leis de uso do solo, códigos ambientais) são sistematicamente reféns de um falso progresso.

Enquanto as tragédias ambientais aumentam em número e intensidade, como alertam os especialistas, em direção oposta estão os legisladores e gestores dos municípios. Esses comandam alterações nas leis de forma a permitir a invasão dos leitos dos cursos d’agua pelas construções; eliminam a exigência de preservar os topos de morros.  Esses são caminhos suicidas, abomináveis, que custarão caro. Se insistirem nessas direções serão os responsáveis por tragédias com mortes. A natureza, alterada pela ação humana, vai continuar a responder por isso. Essa flexibilização inacreditável das regras ambientais vai matar cada vez mais gente. Governantes, por favor levem os especialistas a sério, considerem seus conhecimentos para serem aplicados na prevenção, no planejamento, porque a natureza machucada como está não vai dar trégua. Onde será o próximo “Rio Grande do Sul”. Não se sabe, mas ele vai acontecer. Meus sentimentos ao gaúchos, que eles se recuperem e reconstruam seu estado de forma preparada para enfrentarem o radical novo normal. E que nós, que escapamos desta vez, aprendamos com a sábia ciência.


06 maio 2024

EIS QUE RESSURGEM OS ESPECIALISTAS

Imagem Roberto Hüpper

Querem ouvir os especialistas sobre mudanças climáticas?
É só esperar uma nova tragédia que eles serão ouvidos.
Depois tudo passa até a próxima tragédia.
Nos intervalos, cada vez mais curtos, nada será feito.
Até que deem momentaneamente ouvidos aos especialistas, novamente. 
Um ciclo que não vai acabar tão cedo. 
O mundo prá nós humanos pode acabar antes.
 

23 março 2024

INSISTENTE, IGNORANTE REPETIÇÃO

Todos os anos e, considerando o agravamento das condições meteorológicas, vêm tragédias anunciadas: temporais, enchentes, deslizamentos, prejuízos econômicos, mortes. 

Muitas evitáveis.

02 janeiro 2024

ARTIGO: GENTE E BICHO


Artigo publicado no jornal Folha da mata, Viçosa,  em 28 de dezembro de 2023

Moramos numa cidade que não é muito grande, nem muito pequena. Nosso município faz parte do que chamam “Mar de Morros”, onde antes era tudo Mata Atlântica. Muito dela foi destruída, mas o nome ficou para designar a região: a Zona da Mata. Nossa cidade não para de crescer, só que de forma bastante desorganizada. Ela se expandiu, no início, ao longo dos vales, onde ainda esconde e espreme os leitos dos cursos d’água. Depois cresceu para o alto dos morros. Isso dizimou as matas ou o que já foram cafezais. Ficaram terrenos sujeitos à perigosa ação das chuvas. Aos poucos e de forma descuidada adentrou-se na área rural, modificando os usos; moldando espaços nem sempre adequados para lazer, festas, jardins; construindo piscinas, açudes. Esse crescimento impacta muito o meio ambiente e altera a vida dos animais e a forma com a qual convivemos com eles. 

Os animais das matas estão vivendo cada vez mais entre nós, ou melhor, nós adentramos continuamente em seus habitats. Tudo se misturou: urbano com rural, animais domésticos com animais silvestres, gente com bicho. No bairro onde moro, vejo, de manhãzinha e de tardinha, enormes bandos de garças acompanhando o vale do ribeirão. Isso é muito bonito e queria que isso acontecesse para sempre. Recebo visitas matutinas e vespertinas de um bando de galinhas d’angola, sei que gostam do meu quintal, porque lá não tem cachorro. Não é grande, mas tem várias árvores que servem de ponto de descanso e de observação para as aves. Recebo visitas de teiús enormes, gambás, tatus, jacus, araçaris, tucanos, maitacas, bem-te-vis, sabiás, galos do campo. Eles comem frutos que encontram no meu quintal: juçara, coco babão, jabuticaba, uvaia, pitanga. Antes aqui havia mais tatus, preás e corujas barranqueiras; agora ouço falar mais de pernilongos, escorpiões, cobras, baratas, cigarras, formigas cortadeiras e lagartas que acabam com nossos jardins e quintais. 

Meus vizinhos reclamam dos gatos que deixam excrementos em seus jardins e deixam loucos seus cães de estimação, enquanto outros vizinhos os alimentam às escondidas. Já vi na cidade muitos comedores, bebedores e casinhas para os cães de rua, que são muitos. De vez em quando aparecem cães com um tipo de blusa para aquecê-los no inverno. Essas são iniciativas legais. Infelizmente, por outro lado, há vários casos de maus tratos aos animais: filhotes de gatos jogados no rio; filhotes de cães abandonados em terrenos baldios; cães abandonados nas ruas, porque os donos não os querem mais; animais morrendo envenenados. Ah, quanta desumanidade!   Há, na cidade uma instituição privada de proteção dos animais que tenta, com muita dificuldade, abrigar essas pobres criaturas,pois depende de ajuda das pessoas e do poder público, só que o número de animais abandonados não para de aumentar. 

Os animais correm riscos com os humanos e nos deixam grandes problemas. De vez em quando, cavalos vão pastar nos jardins da praça central, ou, o que é perigoso demais, costumam ficar soltos nas estradas. Isso cria um risco constante de acidentes graves, mas ninguém impede isso de se repetir. No campus da Universidade ainda há capivaras, jacarés, micos e cobras. Seriemas já adotaram os jardins da UFV como lar. Há muitos cães abandonados que se tornaram agressivos.  Enfim, temos de cuidar dos animais, respeitá-los e desenvolver políticas públicas para lidar com essa questão. Nós devemos, gente e bicho, nos acostumar a conviver harmoniosamente, também é necessário controlar a expansão da cidade área rural adentro.  

26 novembro 2023

O RIBEIRÃO E OS HUMANOS

 


Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa, M em 23 de novembro de 2023.

Sou um pequeno ribeirão em um município que abriga uma cidade média. Ganhei até nome de santo. Cruzo, de sul a norte, toda a cidade. Minhas nascentes estão numa área rural, ao sul do município, as quais vêm perdendo, a cada dia, suas características, devido à multiplicação da instalação de chacreamentos e de condomínios irregulares. Com isso, muito já fui muito desmatado, já tive muita terra tirada do lugar. Fico magro e raso, assoreado, invadido nas minhas margens. Isso tudo prejudicou a minha produção de água. Ainda bem que há alguns movimentos para me protegerem. Uns grupos “plantam” água, outros constroem barraginhas para segurar as enxurradas. Alguns humanos estão tentando terminar o plano de manejo, que se arrasta há décadas. Essa lentidão me preocupa. Por algumas vezes, por causa da mudança climática e das intervenções humanas, quase sequei. Começo, desde cedo a receber esgotos dos humanos. 

Chego a um campus universitário e sou represado por cinco vezes. Acho que fico bem com represas bonitas, melhoro bastante o meu astral. Os humanos também adoram caminhar em volta de mim, tiram fotos parecem se divertir. Só que, na segunda represa, sugam minha água para duas estações de tratamento de água. Mato a sede dos humanos no Campus e de parte dos humanos da cidade. Já fui muito mais robusto, produtivo, mas aos poucos venho perdendo vigor. Crio com orgulho, nessas lagoas, peixes, garças, saracuras, capivaras, martins-pescadores, jacus, garças, sabiás, bem-te-vis e até jacarés. Só que minhas águas não são mais saudáveis, tanto é que não deixam mais os humanos pescarem. 

Sigo em frente, caio num enorme sifão, mergulho na escuridão, entubado, sufocado, por duas vezes, até ressurgir, cercado de prédios muito próximos e injetado por canos que me despejam esgotos e águas dos telhados. Os humanos cimentam seus quintais e calçadas, asfaltam suas ruas e, quando chove, reclamam que não dou conta de escoar as águas. Recebo as águas sujas de alguns córregos sofridos. Sofro assim, por mais de quatro quilômetros, sujo, cheio de entulho, de sofás, de bananeiras, de galhos e de todo tipo de plástico. Fico quase morto, imundo, sufocado, sem peixes, carregado de bactérias do mal. Depois disso tudo, junto-me, próximo a aterros e bota-foras, ao ribeirão Turvo Sujo, que, bastante sugado para matar a sede do resto da cidade, vem carregado dos resíduos da humanidade. 

Dessa forma, contribuo, não com a qualidade das águas de que gostaria, para o rio Piranga, que lá perto de Ponte Nova se junta ao rio Carmo e se torna o grandioso e machucado Rio Doce. Peço mais atenção, mais cuidados comigo e com os meus receptores. Peço socorro enquanto ainda há tempo. Quero mais árvores e arbustos me acompanhando, quero mais frutas, peixes, sapos, aves, lagartos, cobras, capivaras. Assim, posso conviver com os humanos e continuar produzindo água e como generoso que sou, posso doar, sem me comprometer, parte da minha vitalidade. Como recebi o nome do padroeiro dos padeiros, alfaiates, sapateiros, açougueiros e comerciantes em geral, quero-os felizes, saudáveis e prósperos, assim como todos aqueles que precisam de que esses existam.


18 março 2023

APA SÃO BARTOLOMEU - VIÇOSA-MG

Realizada em 18 de março de 2023, na Câmara Municipal de Viçosa, a apresentação do Plano de Manejo da APA do São Bartolomeu. Proposta avançada, mas precisa de alguns ajustes, principalmente a compatibilização com o Plano Diretor, prestes a ser votado.
Audiência importante, com poucos participantes.
Foto Ítalo Stephan, março 2023.

 

13 março 2023

AGORA VAI (?!)

 


Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa, em 8 de março de 2023

Há bons ventos em direção ao nosso país. Novos tempos, novas expectativas, céus mais claros. Sob o ponto de vista do planejamento urbano e municipal de Viçosa, os horizontes estão favoráveis. O anteprojeto de lei do Plano Diretor está na Câmara com votação próxima. A lei de uso do solo está em discussão com algumas audiências públicas marcadas. A APA do São Bartolomeu está avançada e será apresentada ao público. Há, portanto, oportunidades para que os cidadãos preocupados com o desenvolvimento urbano e rural de Viçosa se manifestem e ajudem a definir nossos rumos. Agora vai?

O Plano Diretor vigente é um marco que completou 22 anos sem ter sido revisado, como o mesmo definiu, em 2005. Duas tentativas frustradas de 2008 e 2019 impediram sua atualização. O ano de 2023 tem grandes chances de, finalmente, ter a necessária revisão aprovada. Depois de anos de desentendimento, representantes do setor da construção civil se juntaram aos capacitadíssimos técnicos de uma comissão que trabalha gratuitamente.   Dessa forma, a discussão se ampliou com mais chances de Viçosa ter uma legislação atualizada e moderna, capaz de atender às diferentes demandas da população. Ainda há espaço para melhorar, incluir demandas legítimas, nas reuniões públicas, na discussão na Câmara, pois creio que os vereadores estão atentos à tão longa discussão. 

A mesma competente comissão quer ouvir, mais uma vez, os interessados nas questões ligadas ao parcelamento do solo (dimensões de lotes e de vias, áreas destinadas ao público à preservação), ao uso do solo (o que pode ser construído sem gerar conflitos), à ocupação do solo (de que forma pode ser construído).  O resultado dessa discussão, que se tornará lei, como é sabido, é importante para adequar o crescimento de forma compatível e sustentável. Para isso as regras têm que se adequar à topografia, à infraestrutura disponível ou possível de ser implantada (vias, saneamento, permeabilidade do solo), à vocação das diferentes áreas do município (inclui as áreas rurais). Esse é assunto que deverá gerar bastante diálogo, pois é preciso equilibrar o necessário desenvolvimento econômico, com a demanda por habitação e por espaços para  serviços, comércio, indústria, equipamentos de educação, saúde, lazer, cultura. 

O Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental - APA - do São Bartolomeu está com uma minuta pronta para discussão em audiência pública marcada para março. A APA é um assunto iniciado há mais de três décadas, mas só foi criada em 2017. A importante bacia já sofreu muitos graves impactos ambientais e é essencial para Viçosa. Com o Plano de Manejo, a microbacia ganha uma oportunidade de ser recuperada e de voltar a ser sadia, nessa era de profundas mudanças climáticas. Essa região sul do município foi espontaneamente ocupada e muito judiada com movimentos de terra, desmatamentos, assoreamentos, parcelamentos de terra irregulares. Isso tudo isso precisa ser organizado, para que a convivência humana seja compatível com o desenvolvimento sustentável. Isso é possível, chega bastante tarde, mas é reversível. Oxalá!

Por fim, recomendo aos construtores, incorporadores, comerciantes, administradores, arquitetos e urbanistas, engenheiros, prestadores de serviços, geógrafos, sociólogos, ambientalistas, estudantes, enfim aqueles que se consideram cidadãos, a acompanharem os três processos, se possível apresentarem seus pontos de vista, suas preocupações. É o tempo ideal para avançar, para enfim, dotar o município de legislação atualizada e justa para todos. Viçosa fica preparada para merecer seu nome.  Agora vai!