Mostrando postagens com marcador cidades planejadas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cidades planejadas. Mostrar todas as postagens

11 janeiro 2026

PARA ONDE IREMOS DAQUI?

 


Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa-MG, em 8 de janeiro de 2026

Chegamos ao fim de 2025. Um ano, como vários outros, pleno de fatos para refletir e lamentar. Guerras intermináveis, como as em Gaza, na Etiópia e na Ucrânia, no Sudão e no Iêmen; insurgências do Boko Haram e islâmicas no Magrebe... Vivemos um xadrez político internacional nas mídias, com muitas fake news no cotidiano e uma polarização em crescimento, tendo em vista 2026. A extrema direita avança em muitos países, com apagamento das lições da História. A soberania dos países tem sido ameaçada pelas potências, vide o que aconteceu no Irá e agora  na Venezuela.

O meio ambiente, mais uma vez como preocupação, continua ignorada pelas grandes potências. Mais um ano em que se bate recordes em extremos de temperaturas, em número de tufões, ciclones, furacões, tempestades, enchentes e secas prolongadas. Cada ano será o ano mais frio dos próximos cinquenta. Prejuízos enormes em vidas e em posses materiais são contabilizados em gráfico ascendente.  2025 foi o anos da primeira vez que a média de temperatura s ultrapassou o limite estabelecido no Acordo de Paris de 2015, que visa limitar o aquecimento a no máximo 1,5 graus Celsius. Tudo indica que o limite continuará a subir.

O planeta Terra vem sinalizando, pedindo socorro, já há algumas décadas, aos humanos e os seus governantes, que negam ou empurram para 2030, que já está logo ali, ou para anos futuros, postergando ações necessárias conhecidas que já estão defasadas. Representantes de países se encontram, discutem, mas chegam a pequenos acordos; geram indicadores para adaptação futuros, sem abrir mão das inexauríveis exigências capitalistas. Deixam para que nossos filhos e netos resolvam. Saem desses encontros sem compromissos com a redução do uso dos combustíveis fosseis. Criam metas sem ambição, abaixo do da urgência científica. Isso tudo configura um quadro de insustentabilidade. As diferenças sociais se ampliam.

O ser humano influencia a natureza desde o estabelecimento em sociedades. Sabemos, há muito que, para desenvolver o caminho da sustentabilidade, são necessárias grandes mudanças na forma de pensar e em como usar os recursos naturais. Muitos de nós temos consciência que os recursos naturais não são ilimitados e que eles estão se esgotando, e tudo isso vem acontecendo, devido a ação irresponsável dos seres humanos. Há muito conhecemos os “R” s - reciclar, reutilizar, reduzir, repensar, reintegrar, restaurar... Praticamos vários deles, mas isso é insuficiente. Podemos e devemos nos habituar a ações sustentáveis individualmente ou em pequenos grupos, mas as grandes reformas estão nas mãos da dúzia de poderosos que manda no planeta. 

As cidades, maiores invenções humanas, são os ambientes de maior risco, pois concentram pessoas. Inundações, deslizamentos, incêndios e destruições de imóveis apagam cada vez mais vidas e custam cada vez mais caro. Qualquer que seja o porte das cidades, os desafios para planejadores, gestores e construtores serão como se adaptar a esses extremos. Em contrapartida, absurdamente, na contramão, a legislação ambiental fica cada vez mais fragilizada pela voracidade ignorante do capital, que constrói cada vez mais próximo dos cursos d’água, impermeabiliza as cidades, invade encostas e desmata ao se estender sem fim em direção às áreas rurais.

Os recursos que chegam são politiqueiros. Os governos municipais estão quase totalmentel dependentes de obscuras emendas parlamentares, nem sempre prioritárias para a população. Essas não chegam para saneamento - uma vergonha nacional -, para melhorias de escolas e postos de saúde, para pagar melhor professores, para regularização fundiária ou para a estruturação de um planejamento territorial adequado. Nosso destino é incerto. O antropoceno e o capitaloceno, marcas dos tempos atuais, podem não durar tanto quanto os poderosos querem. Poderemos ser felizes em 2026... 2029... 2038... 2040...!?


Foto: https://umsoplaneta.globo.com/clima/noticia/2021/04/04/o-que-sao-as-mudancas-climaticas.ghtml

16 julho 2023

PALMAS OU VAIAS?


Artigo publicado no jornal Folha da Mata,Viçosa, em 13 de junho de 2023.

O governador do estado vibrou, os políticos aplaudiram e o povo cantou o nome do governante. Foi a realização de um sonho. Foi a inauguração de uma nova capital, todinha planejada, para caber muitas centenas de milhares de habitantes; gente pioneira e trabalhadora em prol do desenvolvimento daquele estado de solo fértil e de água abundante. Amplas avenidas, ruas largas, grandes parques, um enorme lago, com lindas praias, tudo favorecido por uma topografia plana. A capital foi planejada para ser construída em quatro etapas, na medida em que fosse ocupada. Prédios de arquitetura arrojada foram erguidos para abrigar o Palácio do Governo, a Assembleia, o Fórum. Na capital foram construídos projetos do arquiteto mais famoso do país, inclusive um belo aeroporto. Tudo muito bonito, tudo muito bom no começo. Nesta cidade pensada, caberiam mais de dois milhões de moradores.

A ganância de poder, a vontade de ficar famoso, o desejo de entrar para a história como visionário, tomaram conta dos próximos governantes. Por que não fazer logo as outras etapas do ambicioso plano?  Um acordo foi feito com as construtoras; em troca de instalar a ampla, enorme, estrutura viária, com quilométricas avenidas com seis pistas, muito bem iluminadas, ganhariam muitas glebas dentro da área planejada, para usarem quando bem quisessem. Construíram até condomínios de luxo murados e shoppings centers. A cidade passou a ser chamada de a capital brasileira da especulação imobiliária. Com as obras, surgiram milhares de lotes, mas esses ficaram vazios, nas mãos de uns poucos proprietários e do Estado.

No entanto, faltou combinar com o povo que o custo da terra ficaria muito alto. As pessoas vieram de muitos lugares do país, com a esperança de se arranjarem bem na vida. Muitos que chegavam, eram mesmo muitos, não encontraram lugar para morar dentro da área planejada, dentro do magnífico plano. Barreiras policiais impediram que os migrantes ocupassem a cidade planejada. O jeito foi arrumar um pedaço de terra na borda da cidade. Esta região é a quinta fase, a não planejada, a mais populosa, a com menos infraestrutura, sem segurança, sem coleta de lixo, sem transporte público de qualidade, onde moram as pessoas teimosas cheias de esperança.  O transporte coletivo é um serviço ruim; ônibus superlotados, malconservados e com os horários insuficientes e sempre atrasados. Três quartos dos assassinatos acontecem lá. Morre gente na disputa de quem vende mais drogas para o lado urbanizado.

 Atualmente, existem duas cidades separadas. Uma é o oposto da outra. Uma que com proprietários de terras sem uso, ricos; outra com ocupantes irregulares, pobres. Uma é enorme, planejada, cheia de terrenos vazios, bem urbanizada e equipada, bem policiada, mas é uma região de manutenção cara, que consome muitos recursos públicos.  É uma das melhores cidades para morar do país. A outra parte é menor, distante dezenas de quilômetros do lago e do poder, apinhada de gente, longe do plano urbanístico moderno, cheia de problemas sem recursos para melhorar. Ali, a violência não para de crescer, bate recordes em cima de recordes. De nada adiantou planejar uma linda cidade, se ela não consegue abrigar a todos.

Foto: https://jc.ne10.uol.com.br/colunas/turismo-de-valor/2021/03/12040755-palmas-a-jovem-capital-que-de-tao-bela-merece-o-tocantins-inteiro.html

15 novembro 2019

PALMAS PARA QUEM?


Artigo publicado no jornal Folha da Mata, 07/11/2019.

Estive recentemente em Palmas, a capital do estado do Tocantins. Foi a última capital brasileira planejada. Fui conhecê-la por curiosidade, para ver como uma jovem capital planejada se mostrava aos 30 anos de existência.  Foi uma experiência complexa e dividida entre surpresas agradáveis e desagradáveis. Do lado positivo, Palmas é uma capital que não para de receber novos moradores, é muito arborizada, é relativamente pacata e aparenta oferecer boas oportunidades de trabalho. Mas a grande frustração foi conhecer uma cidade que os urbanistas de lá denominam de a capital brasileira da especulação imobiliária.

Palmas foi implantada em uma das margens do grande Rio Tocantins, que oferece à cidade praias, águas limpas e pesca abundante. Sua população é formada por pessoas que vieram de todas as partes do Brasil. Tem um alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-M0,788). Palmas possuiu as mais importantes taxas de crescimento demográfico do Brasil nos últimos dez anos. Vem recebendo pessoas de praticamente todos os estados brasileiros, com destaque para aqueles vizinhos ao Tocantins. De bom, acho que é isso.

A capital já atingiu uma população de 300.00 habitantes. Foi planejada em quatro etapas de implantação. A segunda etapa seria ocupada apenas após a primeira estar adensada, e assim por diante. No entanto, em um acordo firmado dos governantes com as empreiteiras, foi construído de uma vez todo um sistema viário amplo, abrangendo as quatro etapas. Como compensação, as empreiteiras receberam grandes glebas de terra, as quais dão uso quando lhes interessa.

Palmas, paradoxalmente, possui um altíssimo percentual de terrenos vazios, enquanto rapidamente são erguidas torres de mais de 30 pavimentos. Cresceu horizontalmente, com sete leis de expansão do perímetro urbano durante sua curta existência. Um exagero. Expandiu-se, forçosamente, para abrigar os moradores de baixa renda, longe da infraestrutura de quilométricas avenidas iluminadas, asfaltadas de três pistas de cada lado, com canteiros centrais com uns 50 metros de largura.  Essas são reservadas aos lotes vazios, milhares deles, concentrados nas mãos de meia dúzia de proprietários. Na área planejada, Palmas tem cerca de 150 mil habitantes numa área que cabe, seguramente, quinze vezes essa população atual. Não creio que algum dia será totalmente ocupada. Será uma cidade com baixa densidade populacional, com grandes vazios urbanos centrais e com toda infraestrutura de qualidade instalada.  Outros 150 mil habitantes, de baixa renda, ocupam uma distante quinta fase, não planejada.

Em consequência, houve um vasto espraiamento e uma segregação socioeconômica. Esses fenômenos proporcionam altos custos de gestão e de manutenção. É um custo 5 vezes maior que o previsto pelo plano. É, portanto, a capital com o maior custo de urbanismo per capita do Brasil. Resta aos moradores arcar com as altas despesas decorrentes desses fenômenos (aluguel caro, preço alto de terrenos, grande consumo de combustível) e, cabe, principalmente aos moradores de baixa renda, separados em distantes áreas, padecerem de serviços adequados como transporte coletivo, coleta de lixo e drenagem.

 Atualmente, mais parece que existem duas cidades separadas. No entanto, Palmas ainda é uma cidade de oportunidades, por ser capital de um estado em desenvolvimento. Poderia ser mais justamente desfrutada. Embora planejada, teve sua implantação modificada, distorcida para atender ao grande capital.  Seu perímetro urbano é continuamente expandido, o que é tecnicamente desnecessário e economicamente insustentável, apenas para enriquecer o patrimônio de alguns.