Mostrando postagens com marcador Mudanças climáticas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mudanças climáticas. Mostrar todas as postagens

22 março 2026

SALVE-SE QUEM PUDER


 SALVE-SE QUEM PUDER

Mais uma vez, depois de mais uma tragédia ambiental de grandes proporções, vem a imprensa apresentar os experts em meio ambiente, para que expliquem detalhadamente o que aconteceu e o que deveria ser feito. Ano a ano, fatalidade a fatalidade, isso se repete. Os especialistas vão falar das mesmas causas: falta de planejamento urbano e ambiental; falta de fiscalização que impeça ocupações; negligência e irresponsabilidade dos governantes; falta de recursos para obras e para a Defesa Civil. Vão mencionar a desobediência ao Código Florestal Brasileiro, que existe desde 1965; os inúmeros estudos e mapas de áreas suscetíveis a deslizamentos e inundações. Vão alertar para a flexibilização criminosa da nova versão do Código Florestal Brasileiro.

E mais uma vez, passadas as maiores dores, contabilizados os prejuízos, deixadas as saudades e diminuídos os interesses na imprensa, nas próximas tempestades, virão novas tragédias, nos mesmos locais, ou aleatoriamente em qualquer cidade, em qualquer região. Já ocorreu no Rio Grande do Sul, na Serra de Petrópolis, na Serra do Mar, em Recife, em Salvador, na Baixada Fluminense. A próxima pode ser a nossa cidade, ou a de qualquer um de nós. 

Em Juiz de Fora, mesmo com as obras realizadas, essas não foram suficientes para evitar a tragédia. Da lama à poeira, partes de bairros estão interditadas, casas inteiras desabaram, bairros inteiros invadidos pelas águas. O saldo são mais de 60 mortos, milhares de desabrigados, milhões de reais em prejuízos materiais e as doenças decorrentes, como diarreia, hepatite, leptospirose etc. Vale dizer que nenhuma outra cidade suportaria tamanho fenômeno, com o montante de chuvas acumuladas. Vejam o que aconteceu com Ubá, e aqui abro um parênteses, pois a lei dessa cidade vizinha permite a construção de prédios praticamente dentro d’água; o que é uma aberração, um crime, uma exposição de pessoas a riscos dos quais já presenciamos há décadas. 

É preciso dizer, alertar que, se as chuvas da quantidade que vieram, caíssem em Viçosa, varreriam desastrosamente o que estivesse no caminho dos córregos Conceição e Santo Antônio e do ribeirão São Bartolomeu. Nem mesmo as lagoas do câmpus da UFV seriam garantia de segurança. Há encostas muito perigosas em Viçosa, áreas de risco mesmo, como a que segura o bairro Belvedere, a que está em cima da rua Milton Bandeira, as encostas do Bom Jesus e Estrelas, do Nova Viçosa, São Sebastião, Amoras, Morro do Escorpião.   Tudo isso já foi mapeado pela Defesa Civil e no Plano Diretor. 

Os desastres ambientais reforçam a urgente necessidade de adaptações das cidades brasileiras aos eventos climáticos extremos. São necessárias obras, desocupação, realocações de moradias, e, desde já, impedir que as ocupações em áreas de risco continuem. Os governantes empurram as responsabilidades uns para os outros. Possivelmente, alguns deles sequer acreditam nas evidentes mudanças climáticas. Os governantes não destinarão recursos prometidos, ou mal iniciarão as medidas mitigadoras. Com o tempo, esquecerão, pois é ano de eleição, ou pior, vão usar imagens dos dramas para tentar ganhar votos. Por outro lado, as pessoas jamais esquecerão a perda de parentes, de suas casas, das raízes culturais, das penosas reconstruções da vida. O planejamento urbano e os cuidados ambientais serão novamente assuntos para serem lembrados em longas matérias jornalísticas, depois de novas mortes e de grandes perdas materiais. Não pode mais ser um salve-se quem puder. A situação é intolerável e desumana; não permite a contínua negligência crônica de quem nos governa.


21 março 2026

TRISTECIDADE

 


Eis apenas alguns dos sérios danos ocorridos em Juiz de Fora. 
Ruas inteiras ameaçadas (Morro da Glória); acesso importante para a cidade alta, destruído;  pedras ameaçadas de rolar centro abaixo. Colégio de Aplicação João XXIII interditado.

Foto Ítalo Stephan, 21/03/2026

11 janeiro 2026

PARA ONDE IREMOS DAQUI?

 


Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa-MG, em 8 de janeiro de 2026

Chegamos ao fim de 2025. Um ano, como vários outros, pleno de fatos para refletir e lamentar. Guerras intermináveis, como as em Gaza, na Etiópia e na Ucrânia, no Sudão e no Iêmen; insurgências do Boko Haram e islâmicas no Magrebe... Vivemos um xadrez político internacional nas mídias, com muitas fake news no cotidiano e uma polarização em crescimento, tendo em vista 2026. A extrema direita avança em muitos países, com apagamento das lições da História. A soberania dos países tem sido ameaçada pelas potências, vide o que aconteceu no Irá e agora  na Venezuela.

O meio ambiente, mais uma vez como preocupação, continua ignorada pelas grandes potências. Mais um ano em que se bate recordes em extremos de temperaturas, em número de tufões, ciclones, furacões, tempestades, enchentes e secas prolongadas. Cada ano será o ano mais frio dos próximos cinquenta. Prejuízos enormes em vidas e em posses materiais são contabilizados em gráfico ascendente.  2025 foi o anos da primeira vez que a média de temperatura s ultrapassou o limite estabelecido no Acordo de Paris de 2015, que visa limitar o aquecimento a no máximo 1,5 graus Celsius. Tudo indica que o limite continuará a subir.

O planeta Terra vem sinalizando, pedindo socorro, já há algumas décadas, aos humanos e os seus governantes, que negam ou empurram para 2030, que já está logo ali, ou para anos futuros, postergando ações necessárias conhecidas que já estão defasadas. Representantes de países se encontram, discutem, mas chegam a pequenos acordos; geram indicadores para adaptação futuros, sem abrir mão das inexauríveis exigências capitalistas. Deixam para que nossos filhos e netos resolvam. Saem desses encontros sem compromissos com a redução do uso dos combustíveis fosseis. Criam metas sem ambição, abaixo do da urgência científica. Isso tudo configura um quadro de insustentabilidade. As diferenças sociais se ampliam.

O ser humano influencia a natureza desde o estabelecimento em sociedades. Sabemos, há muito que, para desenvolver o caminho da sustentabilidade, são necessárias grandes mudanças na forma de pensar e em como usar os recursos naturais. Muitos de nós temos consciência que os recursos naturais não são ilimitados e que eles estão se esgotando, e tudo isso vem acontecendo, devido a ação irresponsável dos seres humanos. Há muito conhecemos os “R” s - reciclar, reutilizar, reduzir, repensar, reintegrar, restaurar... Praticamos vários deles, mas isso é insuficiente. Podemos e devemos nos habituar a ações sustentáveis individualmente ou em pequenos grupos, mas as grandes reformas estão nas mãos da dúzia de poderosos que manda no planeta. 

As cidades, maiores invenções humanas, são os ambientes de maior risco, pois concentram pessoas. Inundações, deslizamentos, incêndios e destruições de imóveis apagam cada vez mais vidas e custam cada vez mais caro. Qualquer que seja o porte das cidades, os desafios para planejadores, gestores e construtores serão como se adaptar a esses extremos. Em contrapartida, absurdamente, na contramão, a legislação ambiental fica cada vez mais fragilizada pela voracidade ignorante do capital, que constrói cada vez mais próximo dos cursos d’água, impermeabiliza as cidades, invade encostas e desmata ao se estender sem fim em direção às áreas rurais.

Os recursos que chegam são politiqueiros. Os governos municipais estão quase totalmentel dependentes de obscuras emendas parlamentares, nem sempre prioritárias para a população. Essas não chegam para saneamento - uma vergonha nacional -, para melhorias de escolas e postos de saúde, para pagar melhor professores, para regularização fundiária ou para a estruturação de um planejamento territorial adequado. Nosso destino é incerto. O antropoceno e o capitaloceno, marcas dos tempos atuais, podem não durar tanto quanto os poderosos querem. Poderemos ser felizes em 2026... 2029... 2038... 2040...!?


Foto: https://umsoplaneta.globo.com/clima/noticia/2021/04/04/o-que-sao-as-mudancas-climaticas.ghtml

06 maio 2024

EIS QUE RESSURGEM OS ESPECIALISTAS

Imagem Roberto Hüpper

Querem ouvir os especialistas sobre mudanças climáticas?
É só esperar uma nova tragédia que eles serão ouvidos.
Depois tudo passa até a próxima tragédia.
Nos intervalos, cada vez mais curtos, nada será feito.
Até que deem momentaneamente ouvidos aos especialistas, novamente. 
Um ciclo que não vai acabar tão cedo. 
O mundo prá nós humanos pode acabar antes.