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13 janeiro 2019

PALAVRA MÁGICA


Artigo publicado no jornal Folha da Mata, em 10/01/2019

Nessa minha coluna quinzenal não costumo escrever diretamente sobre política (partidária), embora tudo que faço tem conotação com ela (inerente a todos os Homo Sapiens).  Alguns não vão gostar, mas respeitarei as críticas e defenderei o direito das pessoas terem opiniões contrárias.  É um enorme equívoco achar que só PT e PMDB roubaram. Temos um ex-presidente preso, temos ex-governadores presos. Mas temos muitos governadores, senadores, deputados federais, ministros, juízes, deputados estaduais, secretários de Estado, vereadores, secretários municipais, assessores municipais, doleiros, laranjas corruptos e soltos, e que permanecem impunes. A sociedade civil entra nessa lista também.

A corrupção é uma estrutura gigantesca entranhada na nossa cultura. A corrupção tem uma enorme espectro em que sempre atinge a ética. É corrupção usar produtos produzidos às custas do trabalho infantil ou escravo; não devolver uma diferença a mais num troco; oferecer suborno a um Policial ou Fiscal; registrar um imóvel num valor menor para pagar menos impostos. A corrupção começa em casa com Skygato, programas pirata, atestados falsos, votos comprados, empregados sem carteira assinada.  Continua nas escolas, com colegas assinando lista de chamada por outros, colando nas provas, plagiando monografias nas faculdades. Segue pela vida profissional com engenheiros canetas-de-ouro, comerciantes com notas fiscais frias, empresários que não pagam impostos com manobras contábeis, juízes com sentenças compradas, médicos da rede pública que cobram extras.
Uma troca de lado no poder, com os mesmos vícios, de nada vai resolver. Há corruptos da esquerda, da direita, do centro ou do “Maria vai com as outras”. Há corruptos em casa, na rua, na igreja, no trabalho, no lazer. Isso acontece há séculos. Há, certamente, algumas dezenas de milhões de corruptos neste país (o Brasil não é o pior dos países que sofrem com a corrupção). Deixamo-nos ser corrompidos pela distorção que as correntes políticas de ideologias diferentes querem impor. Deixamo-nos levar pelas “verdades” que nos confundem, mas nos agradam. Isso também é corrupção.

O PT errou muito, mas acertou muito também. Criou políticas sociais que agora estão ameaçadas de desaparecer. Dilma foi golpeada com artimanhas políticas porque deixou que as investigações sobre corrupção começassem a abrir as portas, que agora começam a ser fechadas com total parcialidade. O PT não é o campeão de roubos. Houve corrupção no período militar. Houve corrupção durante os governos Floriano, Salles, Bernardes, Vargas, Dutra, Jânio, Sarney, Collor, FHC, Lula... Houve corrupção durante os governos Maluf, Íris Resende, Aureliano, Cardoso, Aécio, Barbalho, Magalhães, Calheiros, Alkmin, Cabral, Garotinho, Moreira Franco... Sempre houve corrupção durante os mandatos dos demais governantes, legisladores, assessores jurídicos. Sempre houve corrupção dos líderes religiosos... Houve corrupção e não acabou, vai continuar.

A solução da corrupção não será dada por um governo de extrema direita, não será resolvida por rezas ou orações, com o fuzilamento de traficantes nas favelas. Não acabará com a prisão dos partidários que agora não estão mais no poder. A solução começa dentro de cada um de nós, com uma palavrinha sensacional, mágica, mas muito ignorada: ética. Reconheçamos nossos erros, nossas omissões, nossas limitações, nossos egoísmos. Deixemos de ser corruptos, assim seremos menos hipócritas em cobrar a punição dos outros. Esta é a corrupção a combater, da raiz até o fruto. Essa é a evolução que precisa ser feita. Começa com a gente, começa em casa.

17 novembro 2018

CIÊNCIA NA ALMA


Um novo livro de  um de meus autores favoritos, especialmente quanto à divulgação científica.
Ateu mais que confesso, assim como eu. Somos do tipo  "incréu profundamente religioso".
Cita Einstein, que cunhou a expressão, um dos seres humanos mais maravilhosos da história:

"Se existe alguma coisa que pode ser chamada de religiosa, é a admiração infinita pela estrutura do mundo até onde nossa ciência possa revelar."

Atualíssimo:
"As decisões políticas, as decisões de Estado e as diretivas para o futuro devem decorrer do exame racional e lúcido de todas as opções, corroboradas pelas evidências, e de suas consequências prováveis. As intuições, mesmo quando não surgem das remexidas águas escuras da xenofobia, da misoginia ou outros preconceitos cegos, precisam ficar de fora da cabine de votação."

Demagogos "proclamaram a temporada de preconceitos", já disse isso em 2016, quando da eleição de Trump. 


04 agosto 2017

BARCELONA - DIVERSIDADE


Barcelona - Diversidade de estilos arquitetônicos.

Neoclássico, gótico, eclético e Gaudi no skyline de Barcelona.

Medieval, com eclético com neoclássico em qualquer rua.

Diversidade de pessoas - convívio nas ruas e praças de Barcelona.

Diversidade e respeito de pessoas de origens diversas.

Espaços generosos e monumentos, atrações de uma cidade cosmopolita.
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Fotos Ítalo Stephan, Julho de 2017

14 janeiro 2017

CRUEL CORRUPÇÃO

Texto Publicado no jornal Nova Tribuna, Viçosa-MG, em 12/01/2017


Os noticiários das grandes redes de TV brasileira mostram com muita frequência a corrupção em nível federal e não deixam de mostrar os escândalos em nível municipal. Na esfera estadual depende muito das relações da imprensa com os governantes, pois estes a dominam.  A situação é muito grave quando olhamos nossos municípios. De acordo com o Portal Transparência Brasil, setenta por cento dos municípios brasileiros apresentam irregularidades relacionadas à corrupção, mau uso do dinheiro público ou má gestão. É um percentual que traz um número aproximado de 3.900 municipalidades com problemas. A corrupção é uma pandemia cruel, injusta, maligna, criminosa. É uma estrutura muito ramificada, que engloba os grandes e pequenos corruptores e  corrompidos. Curiosamente, assisti a um documentário (Dis)honesty (2015) que analisa as variadas formas de desonestidade presentes na sociedade,  em que vários experimentos mostrados indicam que cerca de 70% das pessoas trapaceiam de alguma maneira.

Há uma média de dez vereadores em cada município brasileiro, um número igual de secretários municipais e algumas dezenas de cargo comissionados. Chega-se a um número elevado de pessoas, acima de meio milhão, que lidam com prestígio, poder e... muito dinheiro. Se há tanta vulnerabilidade, mesmo se o percentual real ficar muito abaixo desse percentual estimativo, já nos sinaliza o quanto temos sido prejudicados.

Setenta por cento de irregularidade é um número enorme. Imaginem quando pensamos que muitos bilhões de reais estão sujeitos a não chegar ao ensino, educação, planejamento urbano, obras de infraestrutura e saneamento básico e políticas sociais e culturais. Estimando muito grosseiramente um orçamento de $2.500,00 reais por ano por habitante, teremos cerca de 500 bilhões de reais nas mãos dos administradores municipais. Do mesmo modo, estimando que 70% dos municípios captam 10% desse valor para corrupção, o mesmo percentual é mal utilizado, 75 bilhões de reais por ano deixam de chegar aonde deveriam; o que equivale ao orçamento anual de 390 municípios brasileiros, ou ao valor de 1.250.000 casas populares com um acabamento 20% melhor, com uma área construída 20% maior e em locais muito mais urbanizados. Isso dá mais de 225 unidades para cada cidade brasileira. Com esse dinheiro seria possível construir estações de tratamento de esgotos para mais de 80% das cidades do país. O mesmo valor equivale a 50.000 creches. Certamente poderíamos sair com vigor das vexaminosas posições dos rankings mundiais, em relação aos indicadores sobre ensino, saúde, educação, criminalidade, qualidade de vida, etc. A violência certamente diminuiria. Repito que os percentuais e valores citados são meros exercícios especulativos, no entanto, para mim ainda subestimados.

Não é surpresa para nós ouvirmos sobre investigações, inquéritos, processos, auditorias sobre prefeitos, vereadores, secretários municipais, mas é raro ver alguém preso ou devolvendo para os cofres públicos o que foi deles surrupiado. Dezenas de milhões de pessoas sofrem graves consequências com isso. Com tanto dinheiro desviado, mal utilizado, ainda somos um país que consegue funcionar, embora precariamente, sem grandes convulsões sociais, mas com crescentes diferenças socioeconômicas.  O triste é saber que existe muito dinheiro, mas que tem sido cruel e muitas vezes impunemente desviado por criminosos disfarçados de servidores públicos.



21 dezembro 2016

ADJETIVOS


Vergonhoso, absurdo, indecente, vexaminoso,  acintoso, malévolo, disparatado, imoral, antiético, escárnio, zombaria, prevaricação, caçoada, desprezível, repulsivo, sórdido, torpe, ignóbil, nauseante, asqueroso, descabido, aberrante, sacana, além dos palavrões impublicáveis, é claro.

Faltam-nos adjetivos para qualificar o que os 30 vereadores da cidade de São Paulo que votaram na calada da noite um reajuste de 26% nos seus salários (11 votaram contra).

Neles sobram a habilidade,  canalhice, astúcia, solércia, sagacidade, argúcia,  esperteza,  perícia, competência, negociata, falcatrua, pilhagem, bandidagem, capacidade, malandragem, eficiência em legislar em causa própria.

25 setembro 2016

NÃO MAIS QUE OBRIGAÇÃO


Artigo publicado no jornal Nova Tribuna, Viçosa-MG, em 23 de setembro de 2016.

Nós todos deveríamos saber o que é eticamente correto e o que não é, entretanto uma parcela significativa das pessoas não tem consciência disso, ou acreditam não estar fazendo nada errado. Todos deveriam saber o que é certo e que deveriam agir com ética, pois três  de seus princípios é são o respeito pelas pessoas; fazer o bem e agir com justiça.

Do ponto de vista da verdadeira cidadania, deveria ser assim: um prefeito paga em dia seus funcionários públicos e executa obras prioritárias identificadas com a participação da população. Um cidadão paga em dia seus impostos; não joga lixo nas ruas; não faz barulho depois das 22 horas. Um vereador propõe projetos de lei para aperfeiçoar a legislação existente ou para melhorar a vida dos moradores. Um policial trabalha pela segurança da comunidade. Um consumidor usa racionalmente a água e a energia elétrica. Um estudante é assíduo nas aulas e cumpre suas tarefas de casa. Um médico cumpre seus horários e atende com atenção seus pacientes. Um motorista obedece aos sinais de trânsito. Um passageiro de ônibus respeita a fila e deixa idosos e gestantes sentarem nos assentos preferenciais. Um vendedor atende seus fregueses com educação. Um construtor segue as regras da legislação urbanística. Um jornalista investiga os fatos e escreve com a maior isenção sobre eles. Um telespectador faz uma assinatura legal de TV paga. Um cidadão alcoolizado não dirige. E assim por diante. Ninguém aqui faz mais que sua obrigação.

Do que acontece no dia a dia, dificilmente não conhecemos alguém que aja diferentemente, e isso inclui a nós mesmos. Um prefeito alardeia obras que faz com os recursos municipais e gasta com obras que apenas o promoverão. Um funcionário público se acha no direito de exigir um agrado pelo atendimento. Um vereador garante seu voto doando cestas básicas ou sacos de cimento. Um policial recebe propina do submundo do crime ou de filhinhos de papai para abafar seus erros. Um cidadão joga lixo nas ruas para dar serviço aos garis. Um morador aumenta o som depois das 22 horas quando um vizinho pede educadamente o contrário. Em plena crise hídrica um consumidor lava a calçada com a mangueira aberta e ainda responde a quem reclama dizendo que tem dinheiro para pagar. Um estudante copia um trabalho na internet ou assina um trabalho de um grupo sem ter ajudado a executar. Um médico atrasa nas suas consultas e examina seu paciente sem o devido cuidado. Um motorista estaciona em vagas para cadeirantes e ainda os humilha quando são por eles questionados. Um passageiro de ônibus fura filas e senta onde bem entender, sem dar lugar aos idosos e gestantes. Um jornalista publica boatos infundados e parciais. Um vendedor não demostra interesse em atender ao freguês. Um construtor desrespeita as leis urbanísticas e deixa para a obra para ser regularizada depois. Um telespectador usa a “gatonet” e reclama da corrupção. Um cidadão alcoolizado tem em seu celular um aplicativo mostrando os locais onde há blitzes, e assim por diante...

 Todos deveriam saber o que é certo, e nem todos agem com ética. É nosso dever ser cidadãos conscientes, educados, éticos. Isso não é mais que nossa obrigação. Não podemos prejudicar outras pessoas. Muitos simplesmente ignoram o senso de comunidade, aproveitam a oportunidade para levar alguma vantagem e agem com puro egoísmo. É impossível desenvolver uma sociedade com estas bases.

18 junho 2016

A outra ponta da corrupção

A corrupção precisa ser atacada nas duas pontas, senão nada mudará..

Imagem obtida em: https://vasosdopurus.wordpress.com/2012/10/08/cassacao-por-compra-de-votos-apenas-candidatos-poderao-responder-ao-processo/

TOLERÂNCIA, PRUDÊNCIA E RESPEITO


Texto publicado no jornal Tribuna Livre, Viçosa-MG de 15/06/2016


Há, indiscutivelmente, uma falta de educação geral no trânsito. Motoristas, ciclistas e pedestres cometem erros que trazem riscos desnecessários a todos; provocam ou se envolvem em acidentes com consequências sérias. Há motoristas que param em fila dupla; entram na nossa frente sem sinalizar; ignoram quem está nas rotatórias e transitam falando ao celular. Há aqueles desqualificados que estacionam em vagas para pessoas com deficiência. Dirigem com o braço para fora dos veículos, param em fila dupla sem se importar com a interrupção do trânsito, jogam bingas, papéis, latas na rua como se ela fosse uma cesta de lixo. Desobedecem à sinalização quando presumem não ser nada demais; são multados mas não reconhecem os erros; xingam e fazem gestos obscenos várias vezes: os errados sempre são os outros.

Nas ruas, não há um só dia em que não levamos susto ou damos susto em algum motoqueiro! A agilidade lhes dá erroneamente a ideia de que podem andar a altas velocidades na área urbana. A mesma propriedade também não lhes dá o direito de ultrapassar pela direita, fato que se tornou corriqueiro. No automóvel, por mais precavidos que sejamos, por mais atentos que estejamos, as motos aparecem à nossa frente em frações de segundos. E tome xingamentos!

Um outro exemplo da falta de respeito no trânsito é que nos semáforos é possível afirmar que, em pelo menos uma a cada três vezes em que um sinal fica vermelho,  por ele avança um veículo apressado, na maioria das vezes motocicletas. A mesma proporção serve para afirmar sobre os que avançam antes de o sinal abrir. Ainda sobre os semáforos, é notável o pouquíssimo tempo deixado para a travessia de pedestres em alguns cruzamentos, o que expõe pessoas com mobilidade reduzida a riscos de atropelamentos por parte dos motoristas mais afobados.

Há pessoas que gostariam de andar de bicicleta, mas têm medo de fazê-lo nas nossas ruas. Não há ciclovias ou ciclo faixas. Há também ciclistas que desrespeitam as normas do bom senso e do trânsito, criando a toda hora desnecessárias situações de perigo. Os pedestres são muitas vezes afoitos quando se jogam imprudentemente nas faixas de travessias. É comum um automóvel parar antes da faixa, mas, por trás, vir um motoqueiro que não respeita pedestres. Para sua segurança, é preciso que parem, olhem, sinalizem que pretendem atravessar, aguardem que os veículos os deixem passar.

Não sei se adianta muito, mas não há, em Viçosa, na área urbana, placas de limites de velocidade. A simples sinalização pode não resolver muito, pois poucos a obedecem. A falta dela estimula o aumento da velocidade. Seria também uma referência, se houvesse fiscalização. É necessário que existam campanhas permanentes de educação para o trânsito, tanto para os condutores de veículos, quanto os pedestres.  Há poucos anos funcionava assim, os moradores de Viçosa eram reconhecidos como educados no trânsito. Depois da instalação dos semáforos, houve um relaxamento da boa educação. Falta-nos cultura, civilidade, tolerância, alteridade, prudência e respeito, exercendo o papel de pedestre, ciclista, motociclista ou motorista.

10 maio 2016

62 x 3.800.000.000

‘Quando 62 pessoas têm a mesma riqueza que 3,8 bilhões de pessoas, estamos longe do fim da miséria’


https://nacoesunidas.org/quando-62-pessoas-tem-a-mesma-riqueza-que-38-bilhoes-de-pessoas-estamos-longe-do-fim-da-miseria/

09 abril 2016

INDIFERENÇAS

Texto publicado no jornal Tribuna Livre, de Viçosa-MG, em 6/4/2016

Sou professor universitário há vinte e três anos. Tempo suficiente para viver e perceber muitas mudanças. Tempo suficiente, também, para que eu mantenha alguns comportamentos em relação às pessoas, mas sem a mesma convicção de antes. Falo isso porque insisti num hábito adquirido desde a formatura da primeira turma, há 19 anos, que era o de ir cumprimentar os ex-alunos do curso nos gramados da UFV, logo após a colação de grau, após a tradicional e bonita queima de fogos. Isso aconteceu sempre que estive em Viçosa, na época das solenidades que eventualmente coincidia com minhas férias; independentemente do fato de ser ou não um dos homenageados.

Fato constatável é que as coisas mudaram. Na mais recente formatura, fui atrás dos alunos e recebido por uma pequena minoria com carinho, mas, para a maioria, tive a impressão de que minha presença ali não fazia muita diferença. Gostava desses momentos para conhecer os parentes dos alunos. Não fui apresentado a nenhum deles. Não fui com expectativa de receber convite para o coquetel, mas ouvi uns alunos perguntando aos outros se iriam. Os alunos se juntavam para tirar fotos e raramente me incluíram nelas. Isso marca uma trajetória em que começou com coquetéis oferecidos a todos os professores, numa fase em que os homenageados também ofereciam coquetéis, uma fase que tendem a persistir por uns tempos. Até uns poucos anos atrás, os professores escolhidos ganhavam convites, com seus acompanhantes, para os bailes, além de encontrarem mesas e assentos a eles destinados. Aos poucos os lugares foram desaparecendo e os convites destinados apenas aos homenageados e agora, nem isso tem mais. A espetaculosidade das festas foi alcançando níveis e custos altíssimos, ao mesmo tempo o grau de exclusão ampliou e foi deixando aos poucos os menos abastados fora da farra. As comemorações atingiram um grau de luxo, desperdício e esnobação que não deveriam, já há muitos anos, ter mais o respaldo irrestrito da UFV.

As cerimônias de formatura são momentos tão especiais, repletos de sentimento, mas se reduziram apenas a prazeres materiais (e que prazeres) e de grupos cada vez mais restritos. Como esperado, a primeira formatura do curso de Medicina já foi separada dos demais cursos, numa demonstração de que os seus alunos se acham diferentes dos demais. Voltando ao assunto, os alunos têm deixado a UFV sem sequer um agradecimento aos seus professores. Nem aqueles cartõezinhos com as fotos individuais aparecem mais. Para mim, além de falta de reconhecimento, é falta de educação.

Há outro lado tão triste como o criado pelos alunos. Antes, vários professores iam ao encontro dos ex-alunos, num último momento de convivência, uma despedida calorosa. Desta vez fui o único professor do curso a ir cumprimentá-los. Um mau sintoma também, pois a indiferença cria o distanciamento pelos dois lados. Os tempos são outros, mas as boas maneiras, a tolerância, o respeito e a gentileza nunca deveriam sucumbir. Tentarei manter, não sei por quanto tempo, um costume que não quero abandonar, mas que a indiferença incomoda muito, ah, incomoda!

21 fevereiro 2016

INDIFERENÇAS

INDIFERENÇAS

Texto publicado no jornal Tribuna Livre, em Viçosa, em 18/02/2016

Sou professor universitário há 23 anos. Tempo suficiente para viver e perceber muitas mudanças. Tempo suficiente para permanecer com alguns comportamentos em relação às pessoas, mas sem a mesma convicção de antes. Falo isso porque insisti num hábito adquirido desde a formatura da primeira turma, há 19 anos, que era o de ir cumprimentar os ex-alunos do curso nos gramados da UFV, logo após a colação de grau, após a tradicional e bonita queima de fogos. Isso aconteceu sempre que estive em Viçosa, e independentemente do fato de ser um dos homenageados.

Fato constatável é que as coisas mudaram. Fui atrás dos alunos e recebido por uma pequena minoria com carinho, mas, para a maioria senti que minha presença ali não fazia muita diferença. Gostava desses momentos para conhecer os parentes dos alunos. Não fui apresentado a nenhum. Não fui com expetativa de receber convite para o coquetel, mas ouvi uns alunos perguntando aos outros se iriam. Os alunos se juntavam para tirar fotos e raramente me incluíram nelas. Isso coroa uma trajetória em que começou com coquetéis oferecidos a todos os professores, numa fase em que os homenageados também ofereciam coquetéis e ganhavam convites, com seus acompanhantes, para os bailes, além de encontrarem mesas a eles destinados. Aos poucos os lugares foram desaparecendo e os convites destinados apenas aos homenageados e agora nem isso mais.

A espetaculosidade das festas foi alcançando níveis e custos altíssimos, ao mesmo tempo o grau de exclusão dos menos abastados os deixou de fora. As comemorações atingiram um grau de luxo, desperdício e esnobação que não deveriam, há muitos anos, ter o respaldo da UFV.

As cerimônias de formatura são momentos tão especiais, repletos de sentimento, mas se reduziram apenas a prazeres, e que prazeres, materiais e de grupos cada vez mais restritos. Alunos têm deixado a UFV sem sequer um agradecimento aos seus professores. Nem aqueles cartõezinhos com as fotos individuais aparecem mais. Para mim, além de falta de reconhecimento, é falta de educação.

Há outro lado tão triste como o criado pelos alunos. Antes, vários professores iam ao encontro dos ex-alunos, num último momento de convivência. Desta vez fui o único professor do curso a ir cumprimentá-los. Um mau sintoma também. Os tempos são outros, mas as boas maneiras, a tolerância, o respeito e a gentileza nunca deveriam sucumbir. Tentarei manter, não sei por quanto tempo, um costume que não quero abandonar, mas que a indiferença incomoda muito, ah, incomoda!

10 fevereiro 2016

Em ano de eleição


Mapa de 2014 - éramos a posição 67.

Perdemos posições - agora estamos na posição 72 em 174. É uma vergonha. Graças à Lava-Jato, à Petrobrás... podemos descer mais ainda.
É mais triste é saber que tem mais 102 países piores que o nosso.

Desmascare o corrupto!
Unmask the corrupt
https://www.transparency.org/
https://www.transparency.org/country/

Mapa;
http://www.scoop.co.nz/stories/PO1412/S00046/new-zealand-drops-to-2nd-least-corrupt-country-in-index.htm

28 dezembro 2015

Tá difícil

Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Texto enviado ao jornal Tribuna Livre, de Viçosa-MG, em 24/12/2015

Queria mandar um texto com algo interessante para este jornal antes de terminar este ano interminável, mas confesso que não consegui escolher um assunto específico, pois me sinto, assim como (acho que outros brasileiros também sentem) soterrado de tanta sujeira e tanta lama. Sinto-me sufocado, imobilizado, impotente; nem sequer espero que isso passe tão cedo.

Neste  2015 algumas bolhas estouraram. Fomos soterrados por uma crise econômica somada a uma crise política nojenta, à bilionária sangria da corrupção e a uma série de problemas ambientais, como o desmatamento e, destacadamente, o agravamento de uma crise hídrica inédita. Caímos na realidade depois de as montadoras despejarem por vários anos milhões de automóveis nas nossas ruas, embora queiram desesperadamente despejar mais ainda. A bolha imobiliária também estourou depois de nos iludir com um crescimento insustentável, de saturar de imóveis nas nossas cidades e deixar grande parte deles vazia.

Desabaram sobre nós os escombros de dois pilares que representavam a economia brasileira: a Petrobrás e a Vale. Acompanhamos um crime ambiental sem precedentes que deverá culminar em precedentes impunidades. Em dezembro de 2016, a mídia nos lembrará que as vítimas que sobreviveram ao mar de lama continuam desamparadas, vivendo em condições precárias, à espera do cumprimento de promessas não cumpridas pelo governo e pela Samarco.

Amizades foram enfraquecidas quando colocadas em lados opostos das preferências partidárias. Assistimos a espetáculos circenses de péssimo gosto nas casas legislativas, ficamos nauseados com comissões de ética. Mesmo sem ter visto nada igual antes, não posso colocar nem a mão no fogo ao acompanhar as investigações da Polícia Federal.
Quinze anos dentro do século XXI ainda temos um país altamente urbanizado que praticamente não trata seus esgotos; raciona suas esparsas fontes de água; mata seus moradores de epidemias; segrega seus moradores; vicia e assassina seus jovens; contamina suas gestantes; imobiliza os seus idosos e adia indefinidamente os sonhos de realização profissional. Três décadas depois ainda há os que desejam um golpe militar.

Dos desdobramentos da crise política ninguém conseguirá adivinhar o que vai acontecer, mas provavelmente resultarão em mais decepções e poucas mudanças essenciais. Nunca poderemos subestimar a capacidade de sobrevivência desses ratos e camaleões travestidos em políticos (que me perdoem os ratos e os camaleões), e nós aqui nos sentindo otários, idiotas, enganados, não sabendo da missa a metade.

Há esperança? Sim, como sou um ingênuo, quero crer que há. Mas não creio que mudanças virão das próximas eleições. Há, no entanto, jovens técnicos chegando aos postos de decisão que não toleram o que antes era tolerado, como ocorre no poder judiciário, especialmente junto ao Ministério Público. Isso nos deixa vislumbrar uma luzinha num túnel gigantesco e labiríntico de lama pútrida e contaminada, de esgotos, troncos, egos inflados, corrupção, tramas, esquemas, manobras políticas, panfletos, entulhos, lixo, carcaças de veículos, balas de fuzis, corpos de jovens assassinados, sangue, seringas, vírus e bactérias.

Apesar dessa caótica situação, não devemos  desistir de tentar fazer um 2016 feliz!

18 dezembro 2015

Sete pecados em um baile de formatura (uma nova versão)

A ocasião da formatura  é, sem dúvida,  um marco importante. Sela uma fase e força o início auspicioso de outras. É um período de celebração justa por muitos motivos: sacrifícios por parte dos pais e dos filhos (separação, saudades, preocupação com o dinheiro, insegurança e dificuldades de adaptação) superação (amadurecimento, muitos estudos, adaptação), e ampliação das oportunidades de realização profissional. Festejar isso é mais que justo e muito esperado pelos estudantes, amigos e familiares. No entanto, há, nessa época uma exacerbação das coisas. Por um lado, há, na colação de grau ou na conclusão do ensino médio, o desejo de compartilhar a felicidade. Há uma postura ou um juramento ético que parece ser deixado de lado imediatamente após as cerimônias formais. Em um país tão católico e ainda marcado pelo contraste social, onde tão pouca gente conclui o ensino médio e menos ainda alcança um título de nível superior, tem havido exageros. A atual forma é excludente.  Dá até para dizer que os sete pecados capitais estão presentes e consolidados no processo da formatura, desde seu início e com seu ápice no grande baile.

A  preguiça, que é negligência ou falta de vontade para o trabalho ou atividades importantes, ocorre quando, mesmo com obrigações como os trabalhos finais do curso. Há uma preguiça em criar uma outra  forma de celebração de momento tão importante que seja mais modesta e includente.

Há a luxúria, que é o apego e valorização extrema aos prazeres carnais, à sensualidade extrema e sexualidade escancarada; o desrespeito aos costumes e lascívia.

Está presente a gula, que é comer somente por prazer, em quantidade superior àquela necessária para o corpo humano. Há, nos bailes, um excesso de comidas e um enorme desperdício que duvido que ocorra em outros locais de um país e de um planeta altamente socialmente injustiçado.

Segue a  avareza que é o apego ao dinheiro de forma exagerada, desejo de adquirir bens materiais e de acumular riquezas. Há quem consiga recursos com políticos.Há uma competição fútil na comparação de quem faz o vestido mais bonito e mais caro. Os homenageados não têm direito a levar seus acompanhantes no baile, nem mesas para se sentar.  Que economia é esta em cima dos homenageados? Quanta gente fatura muita grana "organizando" esses eventos?

O quinto pecado é a ira, que é a raiva contra alguém que não faz parte de sua tribo,  a vontade de vingança. Comparam-se penteados, maquiagens, joias, acessórios e marcas de uísque.

O sexto é a soberba, que é a manifestação de orgulho e arrogância. Comparam-se os sucessos dos que conseguiram uma vaga na universidade pública, emprego dos sonhos ou uma vaga nos melhores mestrados, ou quem ganhou um carro ou uma viagem ao exterior.

Por último, vem a  vaidade, que é a preocupação excessiva com o aspecto físico para conquistar a admiração dos outros. Todos querem participar da “melhor formatura de todos os tempos”, marcados pela  maior quantidade de gente, pela melhor banda, por arranjos florais mais sofisticados, pelas melhores fotografias, pela melhor  marca de cerveja, pela maior diversidade do cardápio, com a maior quantidade de camarão, sorvetes, coquetéis  ou de energéticos.

Há, já desde o início, exclusão e discriminação sociais. Até mesmo os pais podem ser descartados, a não ser para pagar o baile, as roupas, levar e buscar. Quantos estudantes ficam de fora de um baile pelo custo absurdo que muitos pais não podem arcar?A conclusão de uma etapa ou um curso universitário é, paradoxalmente, muito mais que isso. A importância da colocação no mercado de trabalho de pessoas qualificadas (com recursos públicos), mas com  a ética como norteador essencial, é verdadeiramente,  o que importa.

03 junho 2015

Salários aviltantes

No edital para a realização de concursos para o provimento de cargos para a prefeitura de Taguatinga, mostra o absurdo dos baixos valores dos salários, em especial os dos Arquitetos e Urbanistas. Segundo o salário mínimo profissional o valor deveria ser de R$6.698,00 por 40 horas semanais, e não um valor absurdo desses.

13 março 2014

Descartáveis

Texto publicado no jornal Tribuna Livre em 12 de março de 2014

Sou, há vinte e um anos, professor na UFV. Tenho sido homenageado com bastante frequência, como professor da Aula da Saudade. Isso sempre foi motivo de muita alegria e orgulho para mim. No entanto, meu sentimento hoje é de forte decepção.
Como participei de festividades de formatura ao longo desses anos, notei uma mudança muito triste. Até uns sete, oito anos atrás, os homenageados (professor homenageado, professor da Aula da Saudade e funcionário) recebiam os convites, com direito a levar um acompanhante, para o churrasco e o baile. No baile, havia mesas para os homenageados, junto às mesas dos alunos formandos. Ainda nos bailes, poucos anos depois, as mesas dos homenageados foram agrupadas e colocadas longe dos alunos formandos.  A seguir, não havia mais mesas para os homenageados e estes tinham de se virar de mesa em mesa. De uns poucos anos para cá, os homenageados não tinham mais direito a levar seus acompanhantes. Há um ano, para ir ao coquetel dos formandos, cobraram-me o ingresso. Na formatura de 2014, mais uma vez me escolheram. Recebi uma cartinha da empresa organizadora informando que os homenageados não mais receberão sequer os convites do baile de formatura, só restando o churrasco, onde não posso levar minha esposa.
Ao mesmo tempo, ao longo dos anos persiste uma infeliz competição de que o baile seguinte tem de ser melhor que o anterior. São indispensáveis a banda mais famosa, a decoração mais luxuosa, as cervejas mais caras, a comida japonesa, as cascatas de chocolate, os sorvetes e as tortas finas. Enfim, não podem faltar vestidos de muito luxo, sushis e sashimis, uísque 21 anos, arranjos florais, máscaras, pulseiras e colares coloridos, apitos e camarões graúdos. A gula, a esnobação, o desperdício material parecem requisitos indispensáveis para o ritual. Só não se pode desperdiçar dinheiro com os professores e funcionários. Os homenageados não são importantes, podem ser descartados. Assim como podem faltar os colegas menos aquinhoados financeiramente, excluídos desta farra há muito tempo. Lembro também que há, para a grande maioria dos pais, uma cota absurda de sacrifícios para dar aos filhos esse luxo.
Minha decepção maior é a de que estes afortunados formandos serão profissionais que terão seus códigos de ética, mas para mim, já os deixam um arranhão ao mal iniciar suas carreiras. Nós, os homenageados, parecemos ser um mero detalhe com algumas curiosidades para serem lembradas, parecemos cada vez mais descartáveis. Nos próximos anos, não teremos os convites para o churrasco, talvez nem Aula da Saudade. Depois serão descartados os avós, a seguir os próprios pais (convenhamos dizer que os bailes são cansativos, barulhentos demais para gente mais velha). Foi-se embora, se é que existiu - talvez seja ingenuidade a minha achar que existiu - alguma intenção de celebração alegre, de confraternização, de despedida, de marca do fim de uma etapa fundamental na vida de quem aqui estudou.
O baile de formatura se tornou apenas um festival de exibicionismo, ostentação, segregação e vulgaridade. A homenagem parece uma mera formalidade. Lamentável. A que ponto chegamos.