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29 dezembro 2024

MAIS LEGADOS, MENOS FARDOS


A responsabilidade por estarmos vivendo em cidades cheias de problemas sempre foi, principalmente, dos seus governantes, seja por ignorância, por negligência, por irresponsabilidade, ou por atendimento aos interesses eleitorais e os das minorias das elites apoiadoras. Quando reclamamos do trânsito, das enchentes, do atendimento à saúde, da falta de empregos, da falta de segurança, da qualidade do transporte coletivo, é que isso tudo se deve a décadas de inação, à miopia do Estado, nas esferas federal, estaduais e, principalmente, municipais. Somam-se várias as oportunidades perdidas para quebrar esses paradigmas da má qualidade de vida, da exclusão e da injustiça social. 

Quantos recursos financeiros foram desperdiçados em obras inúteis ou paliativas, em festas monumentais ou em melhorias urbanas para favorecerem alguns grupos. Os indicadores de saneamento básico, principalmente os da destinação do lixo e do tratamento de esgotos, são vergonhosos. Obras preventivas e de infraestrutura são colocadas em segundo plano e só mencionadas após desastres ambientais.  Municípios investem mal no recebimento de royalties, de emendas parlamentares, de incentivos e de elaboração de planos e projetos. Prefeitos insistem em inchar a folha de pagamentos com cargos desnecessários ou fantasmas, apenas para se manterem no poder. Não colocam pessoas capacitadas bem remuneradas nos cargos certos. Raríssimos são os prefeitos capazes de planejar a longo prazo. 

A mediocridade e o imediatismo da grande maioria dos nossos governantes não os permitem sequer pensar em trazer mudanças reais, muito menos em deixar um legado para as futuras gerações. A cada ano, amplia-se o fardo herdado pela produção dos espaços urbanos e rurais. As cidades, sem controle do uso do solo, se expandem em vias e calçadas estreitas; em bairros desconectados com a malha urbana. A produção dos espaço urbanos fica à mercê das soluções individualistas de calçadas (descontínuas, inadequadas, interrompidas por rampas), de construções (sem estacionamento, coladas nas divisas e avançadas por cima das calçadas, dentro das áreas de preservação permanente). Prefeitos “jogam” conjuntos populares nas bordas da cidade, em locais sem infraestrutura e sem condições de mobilidade. 

 É cada vez mais difícil trazer uma boa qualidade de vida a toda a população, com a segregação socioespacial em alta. Além disso, somam-se os caríssimos custos de gestão provocados pela irrefreada dispersão urbana e pelo sobrecarregado custo de uma inchada máquina administrativa. Conseguem alguma melhoria os mais amigos dos políticos, numa disputa egoísta do tipo “farinha pouca, meu pirão primeiro”. 

Ainda dá tempo, se nossos próximos prefeitos forem, além de competentes, corajosos e, ao menos, um pouco visionários.  As cidades estão perdendo suas identidades. Para que isso não aconteça, deve-se, entre outros aspectos, preservar seu patrimônio cultural com base na contínua educação patrimonial e na oferta de incentivos. Deve-se adotar regras adequadas de uso e ocupação do solo e de fiscalização de obras; inserir moradia popular no meio da malha urbana; executar obras de drenagem e impedir a ocupação em encostas e nas margens dos cursos d’água. Além disso, cada município tem seus potenciais para um bom desenvolvimento, seja para indústria, agroindústria, pecuária, turismo, cultura, educação, serviços, comércio etc.  

Há, em Minas Gerais, bons exemplos de quebra de paradigmas, como: Rio Doce (gestão urbana de qualidade); Santa Rita do Sapucaí (filosofia da Cidade Criativa, Cidade feliz); Dores do Turvo (legislação de uso e ocupação do solo). Cada município tem recursos humanos capazes de, se bem utilizados e incentivados, sair do marasmo, quebrar a mediocridade, avançar e ser mais justo para com seus moradores. O ano de 2025 será o começo de novos mandatos municipais, mais novas esperanças de começar a mudar de verdade, alguma coisa.


08 novembro 2024

Dia Mundial do Urbanismo

 


No dia 8 de novembro comemora-se o Dia Mundial do Urbanismo.

Uma data importante para refletir sobre os rumos das cidades e as consequências evidenciadas pelas desigualdades sociais.

Arquitetos e Urbanistas, cuidemos de nossas cidades, sejamos cidadãos e não nos acomodemos com nossas cidades injustas!

25 agosto 2024

O QUE É CIDADE?


 Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa, em 22 de agosto de 2024.

Numa defesa de qualificação de doutorado de uma orientanda minha, um dos membros da banca, um geógrafo começou sua apreciação com uma pergunta que não saiu mais da minha cabeça. Ele perguntou: Afinal o que é uma cidade? Tantos autores, geógrafos, arquitetos e urbanistas, engenheiros, sociólogos se dedicam há décadas para tentar decifrar essa maravilhosa criação humana: a cidade. Trago aqui apenas algumas reflexões, depois de fazer alguns recortes, amparados nas minhas experiências de vida e profissional, nos livros que li e escrevi, nos artigos e matérias da mídia que ousei publicar. Parafraseio a geógrafa Ângela Endlich, ao partir da premissa de que são múltiplas e variadas as pequenas, médias e grandes cidades e que as diferenciam, entre outros aspectos, pela origem, localização geográfica, dimensão demográfica e desenvolvimento econômico.  São também múltiplos os seus agentes, atores protagonistas ou coadjuvantes, os quais diferenciam a origem, a idade, a cor da pele, o sexo, a condição de saúde, a qualidade do ensino, a condição financeira, as relações sociais e tantos outros aspectos.

A grande maioria das cidades brasileiras mal alcançam os vinte mil habitantes. Há aquelas com menos de mil habitantes e as grandes que chegam aos mais de 21 milhões, como São Paulo. Há cidades muito antigas que passaram por diversas fases econômicas (mineração, pecuária, açúcar, café, industrialização, prestação de serviços). Há cidades mais recentes, como as criadas em torno de grandes indústrias. Além dos prédios e ruas, uma cidade, independentemente de seu porte populacional, é formada por um sem-número de agentes e vivências. Numa cidade há moradores em diferentes lugares, em diferentes condições, desde em bairros com infraestrutura adequada, com casas espaçosas e modernas, a subúrbios de infraestrutura precária e sub habitações insalubres.  Os cidadãos são pessoas brancas, pardas ou pretas, no entanto, a cor da pele, infelizmente, ainda é um marcador de pobreza ou de riqueza, um diferenciador de ocupação no espaço urbano.

Na cidade, grande parcela da população é formada por trabalhadores, que precisam se deslocar diariamente, seja de automóvel particular, seja de ônibus, de bicicleta ou a pé. Há quem more próximo do local de trabalho; há quem desperdiça 2, 3, 4 horas por dia no eixo casa-trabalho, ou casa-trabalho-escola. Os trabalhadores encontram postos de trabalho em escritórios confortáveis, em fábricas, atrás de balcões ou enfrentam tarefas pesadas em limpeza e obras. São comerciantes, construtores, profissionais liberais, funcionários públicos. São, entre muitas outras categorias, professores, balconistas, pedreiros, diaristas, serventes ou motoboys.

Em qualquer cidade, as vivências se diferem amplamente. Há idosos e crianças (cada vez menos) que veem sua cidade de diferentes escalas. As mulheres são as que mais se utilizam do espaço urbano pois, ao contrário dos homens, quase sempre incorporam, além do trabalho as tarefas domésticas, obrigações de levar filho à escola ou ao médico; fazer compras, cuidar dos pais etc. Uma cidade abriga políticos, construtores, planejadores, empresários, preservacionistas, ambientalistas, cada qual com suas abordagens e interesses, muitas vezes conflituosos; prejudiciais à qualidade de vida e ao meio ambiente. O grande desafio de qualquer cidade é a busca de equilíbrio dessas diferentes forças, sem prejuízos ou privilégios. Isso exige um ampla visão de quem a governa, coisa rara no país.  Visão esta que pode ser construída a muitas mãos, com a participação de todos os interesses nas discussões do destino da cidade, desde que ouvidos e atendidos. Governar uma cidade exige competência para lidar com conflitos, para construir pactos. Com as eleições municipais se aproximando, prestemos atenção em qual candidato terá condições de lidar com essa complexa, rica, admirável estrutura, que chamamos de cidade.

02 setembro 2022

AVENIDA DO POVO




Domingos na Avenida Paulista, São Paulo.
A "praia" do paulistano.

Fotos Ítalo Stephan, agosto 2022.

 

23 abril 2022

ESCADARIAS NA CIDADE

 Eis algumas das escadarias no bairro Jardim Glória, em Juiz de Fora: atalhos entre ruas de níveis diferentes;  mal conservados, mal iluminados, sujos e perigosos.



Fotos Ítalo Stephan, abril 2022.

14 junho 2020

URBANISMO PARA POUCOS

URBANISMO PARA POUCOS

Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa-MG, em 12/06/2020.

A Câmara Municipal de Viçosa aprovou, em março de 2020, uma lei que denomina Avenida Aguinaldo Pacheco um trecho de mais de 10 km de extensão de vias rurais na região entre  Paula e  Violeira. Em outro fato, a Prefeitura asfaltou o trecho entre o câmpus da UFV e os condomínios dos Cristais. Esses dois fatos mostram um rodoviarismo segregador, estratégia para beneficiar soluções viárias a fim de atender aos interesses dos grandes incorporadores. O problema é que são dadas prioridades aos que têm mais, em detrimento da melhoria da infraestrutura urbana nos bairros mais humildes.

Há, nas entrelinhas dessa homenagem ao Sr. Aguinaldo, uma forma predadora de planejamento urbano, sem coerência e sem participação popular. A lei que batiza uma via é uma maneira de inserir as intenções de definir o uso e a ocupação do solo na forma com que os interesses imobiliários querem. Não adianta definir regras para uma via ainda rural tortuosa, não pavimentada, pouco habitada, sem estabelecer regras para as áreas adjacentes. São regras ruins e insuficientes, com uma avenida com tal extensão e apenas 7 metros de largura. Esse trecho está previsto desde 2000 como possível anel viário, o qual se caracterizaria como uma via arterial, com quatro pistas e afastamentos adequados. Mas isso está sendo ignorado, pois interessa apenas valorizar uma área comprada por um pequeno grupo de especuladores. Não precisamos de mais batismos, precisamos gerar e fazer nascer corretamente o desenvolvimento urbano, com uma visão menos míope. Tenho muitas dúvidas se o homenageado concordaria com o que foi aprovado, pois ele tinha uma grande competência em urbanismo. Esse zoneamento, mascarado de homenagem, soma-se ao da Av. Geraldo Reis (alguém sabe onde fica?). Essa “urbanização” predatória que já ocorre no Paraíso sem lei, que não quer lei, agora se estende à região leste da cidade.

Quanto ao asfaltamento do trecho de ligação entre o câmpus e os condomínios desertos dos Cristais, esse foi feito com recursos públicos. A região é uma nova zona urbana criada para permitir a construção dos condomínios, ao longo da “Nova Av. P.H. Rolfs”. Os empreendedores asfaltaram apenas o trecho das áreas dos condomínios. Uma ligação com cerca de 800 metros ficou em chão de terra até a Prefeitura asfaltar, acredito que com recursos públicos. No entanto, esse encargo deveria ser feito às custas dos loteadores. Questiono se esse asfalto era realmente uma prioridade para Viçosa, uma vez que, além de uma recessão à vista, há inúmeras vias, nas áreas urbanas densamente povoadas, em condições lamentáveis, como fartamente noticiado neste jornal, há décadas. Os benefícios aplicados nas regiões carentes seriam mais justamente distribuídos.

Viçosa, ainda sem seu Plano Diretor revisado, continua sendo moldada, zoneada aos gostos dos poderosos agentes da construção civil, com endosso dos poderes executivo e legislativo, e sem discussão com a população. Sua população carente fica com os ônus diários e os grandes proprietários de terras com o bônus, em médio e longo prazos. Falta aos gestores e legisladores uma visão ampla, democrática e a longo prazo para Viçosa. Planejamento urbano é muito mais que asfalto para a elite, muito mais que ações rodoviaristas ou homenagens controversas. O que aqui é praticado é muito ruim para a cidade, pois acarreta mais segregação socioeconômica e injustiça social.

21 julho 2018

07 novembro 2010

8 de novembro: Dia Mundial do Urbanismo


Dia 8 de novembro é o dia mundial do Urbanismo. Esta data foi decretada pela Organização Internacional do Dia do Urbanismo, fundada em 1949, em Buenos Aires, pelo professor Carlos Maria Della Paolera.

Temos o que comemorar?

Nossa utopia e é lutar pela boa qualidade de vida para todos. Há muito a ser feito.

03 agosto 2010

A China moderna

Beijing: avenidas largas e ampla arborização para compensar a poluição
(Foto Ítalo Stephan, 2010)

A China moderna - um local qualquer de Beijing (Foto Ítalo Stephan, 2010)

Os chineses têm mudado muito seu estilo de vida. De uma vida pacata os seres humanos de olhos puxados passaram para comer fast food, dirigir carros velozes nas intermináveis vias expressas, viajar nos trens-balas mais rápidos do mundo ou trabalhar em máquinas modernas. Os adultos procuram fazer o máximo de dinheiro que puderem para terem alguma garantia na sua velhice e as crianças se estressam enormemente, pois têm que construir um excelente currículo se quiserem estudar em boas universidades. Para isso são estimuladas e pressionadas a estudar muito desde muito cedo. Calma e vagarosidade viraram palavras ruins para esse povo que em poucos anos terá a hegemonia no planeta.

A China é um país em que 80% da população é atéia, muitos alegam que não precisam de Deus, pois têm o Partido Comunista. A "Economia de Mercado Socialista" é um termo que significa um país controlado por um poder centralizador e planificado, mas amplamente aberto a uma ordem capitalista de mercado. A China produz, por ano, mais de 10 milhões de automóveis, 560 milhões de telefones celulares, 136 milhões de microcomputadores, 90 milhões de televisores e 82 milhões de aparelhos condicionadores de ar. Esta é apenas parte da enorme potência que o sistema permitiu que se tornasse. Há outra parte, a das bilhões de cópias produzidas nos fundos de quintal de roupas, bolsas , computadores, celulares, relógios, que são vendidos na China e no mundo todo. Os mercados onde se barganham os preços são para os turistas. Os Chineses novos ricos e novos classe média preferem freqüentar os modernos e enormes shopping centers.

No entanto, ainda e possível vivenciar a China tradicional. São mais de 5.000 de anos de cultura que eles têm. Nos espaços públicos há idosos fazendo exercícios ao som de música ou jogando vários tipos de cartas e jogos, adultos conversando e crianças brincando com os avós. Uma curiosidade é que algumas crianças usam roupas abertas em baixo, para facilitar que façam suas necessidades. Sentar-se em um banco em um dos muitos parques pode ser uma experiência fascinante. Um senhor com seus 80 e tantos anos pode pedir, com um simples sinal de cabeça, licença para sentar ao nosso Iado. Poderão ser vários minutos de um silêncio compartilhado, ao mesmo tempo unido pelos signos universais do respeito e da curiosidade, mas separado pelas línguas. A despedida, também silenciosa e respeitosa deixa uma rara sensação de paz e felicidade.

30 abril 2010

Vila Gianetti: a bola da vez do patrimônio

É forte, na UFV, o movimento para acabar com a Vila Gianetti. Há muitos dirigentes e simpatizantes (da idéia) que pensam que é melhor botar quase todas as 56 casas abaixo para deixar terrenos livres para construções mais modernas. É fácil passar um trator por cima da história. É triste ver que mesmo dentro da Academia, falta o reconhecimento do valor da história, da cultura e da arquitetura de um local único no Brasil.

A intenção é absurda: deixar umas casinhas para que os estudantes de Arquitetura e Urbanismo saibam que uma vez houve um conjunto de casas modernistas no Campus. Com o resto da nobre área, ocupar com novos prédios.

Não se deve querer destruir um patrimônio em que não são apenas as casas os elementos essenciais. É ignorar todo um conjunto urbano histórico e de qualidade que não se repetiu a não ser, talvez, como inspirador para o conjunto habitacional do Acamari.

Substituir belas casas por prédios modernos de boa qualidade arquitetônica? É isso que temos visto nesses últimos anos no Campus? Passar por cima da história? Repetir o que se quer fazer em toda a cidade que tem um patrimônio cultural?

Não há argumentos fortes em querer derrubar casas porque ocupam espaço nobre, que o próprio conjunto criou? Acabar com as casas porque a manutenção é cara? Quando é que houve manutenção de verdade? Será que são os únicos prédios que exigem manutenção? A praticidade pode sobrepujar a cultura?

É esse o desejo da Academia? Com certeza é de apenas uma parte desinformada.

Cabe aqui reiterar que sou contra a destruição do patrimônio histórico sexagenário, belo, original e único da Vila Gianetti. Gostaria de saber se estou só, num meio onde há Arquitetos e Urbanistas, Historiadores, Geógrafos, Sociólogos, Artistas, Educadores, Ambientalistas, Economistas Domésticos, Jornalistas e amantes da cultura e da história.

26 setembro 2009

Grand Paris de Sarkozy


http://theurbanearth.files.wordpress.com/2009/03/proposta-roland-castro2.jpg

Veja no sítio uma interessante matéria sobre um ousado projeto para a Grande Paris, trabalho que reúne um grupo de grandes arquitetos, encomenddo pelo Presidente da França Nicolas Sarkozy .


http://urbanidades.arq.br/2009/06/le-grand-paris/

06 maio 2009

O Exemplo de Bogotá

Bogotá, a capital colombiana é uma metrópole com mais de 6,5 milhões de habitantes. Tem sido capa de várias matérias jornalísticas no mundo inteiro, por causa da revolução urbana pela qual tem passado. De uma metrópole violenta e desumana, em quinze anos, passou a exemplo a ser seguido em toda a América Latina.
Áreas deterioradas foram transformadas em parques, bibliotecas belíssimas (com ludoteca, um auditório, salas de projeção, várias salas de internet) foram construídas nas áreas pobres da periferia. Tais espaços valorizaram a dignidade humana e elevaram a auto-estima. A população recebe livros, distribuídos gratuitamente. Implantaram um sistema de ônibus semelhante ao de Curitiba, com ônibus expressos circulando em vias exclusivas, com pagamento antecipado de tarifas e embarque em estações elevadas. Mas acima de tudo isso, houve algumas mudanças muito importantes. Primeiramente, o prefeito, Enrique Peñalosa, conseguiu convencer a população de que os recursos públicos são fundamentais e com isso ampliou a arrecadação. Implantou um amplo programa de regularização .Declarou guerra ao automóvel, começou a tirar o espaço do transporte individual e focou no transporte coletivo e no incentivo ao uso de bicicletas. Acreditava que, na medida em que os mais ricos usarem transporte público, haverá mais pressão política para ele ter uma boa qualidade, que a única maneira para fazer grandes investimentos em transporte público é haver restrições severas ao carro particular. Para o ex-prefeito, os espaços públicos são o melhor meio de se superar as desigualdades sociais. Deixou de construir uma grande autopista elevada e, com os recursos, construiu um parque linear, que chamam de “recreovia”, de 45 km, retirou espaços públicos de estacionamento para a ampliação de calçadas e de ciclovias, investiu em saneamento básico e em melhorias de áreas de lazer. Onde não existia ciclovias, foram construídos 330km delas, integradas com terminais de transportes coletivos. Colocou mais pessoas nas ruas como uma das formas de diminuir a violência.
O prefeito não fez isto tudo de forma tranqüila. Chegou a ter 77% de rejeição, enfrentou um movimento pró-impeachment, que não vingou. Governou de acordo com um plano e uma missão de cidade, não governou sob pressões da elite. Melhorou a qualidade de vida de milhões de pessoas. A criminalidade caiu 78%.
As perguntas que podemos deixar no ar são óbvias. Se, em uma metrópole violenta e de muitas desigualdades foi possível. Em quinze anos, mudar tanto para melhor, porque, numa cidade muito menor e com muito menos problemas como Viçosa, não é possível reverter as más condições de mobilidade e dos espaços e equipamentos públicos? Não é possível que seus cidadãos se convençam de que é preciso ter uma cidade que priorize as pessoas e não os carros? Que é preciso ter mais áreas de lazer e destinadas à cultura? A linha férrea e o Ribeirão São Bartolomeu são dois potenciais inexplorados para ajudar a fazer esta mudança. Nesta cidade pequena, as pressões contrárias às prioridades aos pedestres, ciclistas e ao transporte coletivo seriam muito menores. Basta querer e começar.