Maria Maria mora em uma cidade nem muito pequena, nem muito grande. Mesmo vivendo em um bairro de classe média, a vida das mulheres ali é complicada. Maria Maria tem sorte de estar bem localizada; sabe que, nos bairros mais afastados, não há ônibus suficientes nem horários noturnos, o que impede muita gente de estudar à noite. Quem mora lá tem uma vida mais difícil do que a de Maria Maria : as mulheres precisam de mais tempo em deslocamentos e não encontram perto o que precisam, como creche, escola, atendimento de saúde, trabalho ou lazer.
Parece-lhe que a cidade foi feita só para os homens. Além do medo, as mulheres têm dificuldades para andar nas ruas com carrinho de bebê ou carrinho de compras. Não há locais para trocar fraldas ou amamentar quando estão longe de casa. Maria Maria não tem coragem de fazer o que o marido faz - sair muito cedo, ainda escuro, para ir à academia ou andar sozinho por ruas mal iluminadas.
No trajeto do trabalho para casa, a pé, mesmo morando numa área mais central, Maria Maria anda sobressaltada, pois as ruas por onde passa têm muros altos de ambos os lados, sem janelas, apenas portões fechados. Não se vê gente, não há grades nem jardins; a iluminação é fraca e há terrenos baldios cheios de mato.
Como outras mulheres, Maria Maria se desloca por necessidade mais do que os homens. Enquanto eles fazem basicamente o trajeto casa-trabalho-casa, usando o único carro da família, ela percorre esse caminho a pé, ainda acrescenta levar e buscar a filha na escola, fazer compras e ir à casa dos pais e dos sogros para ver se estão bem. Além disso, o trabalho doméstico é desvalorizado. Na volta do trabalho traz compras, busca a filha e chega em casa para uma nova jornada: o trabalho doméstico - preparar o jantar, lavar roupas, cuidar da filha, ligar para a mãe, arrumar a casa. Do marido, não reclama: ele lava as louças, arruma a mesa do café, lava suas cuecas e deixa a filha na escola.
Depois de todos os afazeres, Maria Maria dorme tarde, cansada, e acorda cedo para mais uma jornada heroica.

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