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06 setembro 2026

SOCIEDADE DA PRESSA


Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa-MG,  em 3 de setembro de 2026.

Já são conhecidos alguns termos ligados aos nossos tempos recentes e à velocidade em que imprimimos aos nossos cotidianos. Basta olhar nas ruas das cidades a pressa dos motociclistas, a pressa dos que precisam atravessar as ruas e a pressa com que queremos novidades e reações às nossas postagens nas redes sociais. Entre os termos utilizados, estão “doença da pressa” ou “síndrome da pressa”, expressões associadas a um estado de permanente urgência, causado principalmente pelo ritmo frenético ao qual estamos todos submetidos. O aumento excessivo da ansiedade é um dos principais fatores associados a esse fenômeno.

A urbanização acelera o ritmo de vida e gera a chamada sociedade da pressa. Temos pressa de sair de casa, de almoçar, de realizar as tarefas, de voltar para casa e de comer sem contato social com as pessoas de carne e osso, para continuarmos conectados às redes; ansiosos para ver as novidades: vídeos, fofocas, reels, memes ou fake news. Com isso, vivemos cansados, ansiosos, sem convívio social, de olho na grama do vizinho. Sequer conhecemos os vizinhos. Temos milhares de contatos virtuais e, paradoxalmente, temos dificuldade para estabelecer relações sociais. 

Nas lojas, demoramos para ser atendidos e, quando somos atendidos, tudo é feito com pressa para que os vendedores voltem para suas telinhas. Corremos para entrar nas longas filas dos supermercados. Corremos para enfrentar um trânsito parado; para ficar parados aguardando o sinal verde; esperamos por muito tempo os ônibus atrasados e, depois, enfrentamos a disputa por cadeiras vazias.

A pressa produz ansiedade coletiva. Não temos apenas pressa para fazer; temos pressa para ser. Pressa para conquistar, para enriquecer, para aparecer, para mudar de emprego, para viajar pelo mundo, para alcançar o sucesso. A sociedade da pressa pressiona os jovens a procurar, muitas vezes em vão, atalhos para serem economicamente bem-sucedidos na vida, além de estimulá-los a comprar veículos mais velozes e celulares com internet ultrarrápida. Não querem ter patrão, mas são submissos à enorme cobrança por produtividade em um contexto de precarização do trabalho, como, por exemplo, nos serviços de entrega rápida, que potencializam os acidentes por causa da danada da pressa. Há pressa para sair dos hospitais e dos prontos-socorros, mas muitas pessoas acabam permanecendo semanas internados ou até mesmo ficando permanentemente inválidos.

O planejamento urbano priorizou o automóvel e a rapidez e ignorou os sinais da necessidade de melhorar as condições e as dimensões das vias, bem como de implementar um transporte coletivo de qualidade e fluido. Sucumbiu às pressões do setor imobiliário e dos agentes ávidos por verticalizar exageradamente as cidades em áreas valorizadas e por rapidamente expandir os limites urbanos. 

Não há tempo para reivindicar melhorias das nossas cidades nem para planejar a médio e longo prazos. Governos são pressionados a apresentar resultados imediatos. Prefeitos têm de gastar, muitas vezes mal, rapidamente e de maneira inconsequente, os recursos das emendas parlamentares. Pressa por lucros, pressa de viver, pressa de chegar e de sair. A sociedade da pressa nos cobra velocidade; entretanto, nos entrega cansaço e doenças. Promete conexão, mas produz isolamento. Promete liberdade, mas nos mantém permanentemente ocupados.