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03 maio 2020

CIDADES INTELIGENTES


Artigo publicado no jornal Folha da Mata, Viçosa, em 30/04/2020.

Vocês já ouviram falar do termo “cidades inteligentes”? Uma cidade pode ser inteligente? Ou pode vir a ser inteligente? Cidade inteligente é um termo que se utiliza ao incorporar os recursos aplicáveis das novas tecnologias na melhoria da gestão das cidades. Uma cidade inteligente utiliza a seu favor as redes em nuvem (informações disponíveis a partir dos nossos smartphones), o big data (expansão da forma de tratamento de dados), a internet das coisas (troca de informações entre dispositivos eletroeletrônicos e disponível pelos sensores e etiquetas que usam radiofrequência) e as open data (dados públicos disponibilizados pelas instituições governamentais). Várias tecnologias já estão presentes no cotidiano (como localização de congestionamentos, tempo de espera para o próximo ônibus), ou seja, o potencial para usar as tecnologias a nosso favor parece inesgotável.

O conceito de cidade inteligente (smart city) ainda é recente e está em desenvolvimento em todo o mundo.  O que existe ainda são diversas iniciativas. Uma cidade inteligente precisa de gestores capazes para utilizar os dados disponíveis de forma a lidar com o planejamento urbano e ambiental.  Deve-se disponibilizar internet para todos os seus moradores,  acesso gratuito e em alta velocidade. Uma cidade inteligente pode usar meios para produzir e distribuir energia proveniente de fontes renováveis. Assim, será possível fazer uso mais econômico da iluminação pública, até mesmo acompanhar a destinação de garrafas pet com sensores. As informações georreferenciadas disponíveis nos smartphones permitem saber se um parque público está sendo usado por outras pessoas, ou seja, se ele está mais seguro. As redes sociais são fortes instrumentos políticos para mapear as dificuldades, discuti-las, enfrentá-las e apontar soluções. A disponibilidade de dados e a participação dos cidadãos ficam facilitadas para informar o que acontece em tempo real.

Com o aperfeiçoamento das novas tecnologias e com a grande quantidade de informações disponíveis, os gestores urbanos começaram a aplicá-las para melhorar as condições de mobilidade, segurança, trânsito e circulação de informações, entre outras políticas públicas. Todas essas tecnologias permitem a redução de deslocamento das pessoas, tanto para o trabalho (com o uso do teletrabalho), quanto para compras, aulas, pagamentos de impostos, marcação de consultas etc. No trânsito, as informações circulam em tempo real, o que pode otimizar o fluxo de veículos. As infovias não têm limites de tamanho, enquanto que  as vias urbanas são extremamente limitadas. Semáforos, pontos de ônibus e veículos podem estar interligados, fazendo o trânsito ficar mais “inteligente”.

O custo dessas tecnologias tende a ser cada vez mais acessível, o que vai permitir que mesmo as pequenas cidades possam se tornar mais inteligentes. No entanto, é preciso tomar cuidado com o uso das tecnologias para evitar seu uso indiscriminado e torná-las soluções para tudo, bem como  usá-las para outros fins escusos. As tecnologias digitais são importantes, ajudam muito, mas não garantem que uma cidade se torne mais inteligente. Elas devem ser utilizadas simultânea e adicionalmente com a aplicação inteligente das demais políticas públicas, especialmente as sociais. A imensa gama de possibilidades de uso das tecnologias ajuda muito, mas não substitui as relações pessoais, a interação do público, nem as atividades culturais e de lazer. O tema é estimulante e promete, mas ainda há muito a avançar. Uma cidade não pode ser considerada inteligente, se não considerar os seus moradores como protagonistas e se não melhorar realmente a qualidade de vida de todos.

03 agosto 2014

SEM PROJETO, SEM GOVERNO.

Artigo publicado no jornal Tribuna Livre de 30/07/2014, Viçosa

Viçosa está sem governo. Viçosa não tem projeto. Quando é que Viçosa teve governo? Quando é que Viçosa teve projeto? Quando é que Viçosa teve um governo inteiramente dedicado ao município e não apenas aos interesses de uma elite de pequenos grupos de míopes dominantes? Quando é que Viçosa teve algum projeto que realmente trouxesse desenvolvimento para todos os munícipes e não ao enriquecimento de uma elite apenas interessada em seus negócios e na manutenção de seu status quo? A resposta é óbvia.  
Estamos atrasados nos serviços de saúde, educação, saneamento, infraestrutura, habitação social, transportes, desenvolvimento e cultura. Com raras exceções de um ou outro grupo que quer discutir, não há horizontes para uma cidade que se dispersa descontroladamente, que vê o meio ambiente ser impunemente destruído. O abastecimento de água pode estar sendo severamente comprometido. Não é a mera existência de um plano diretor, ou da sua dolorosa e arrastada revisão, ou da existência de um instituto de planejamento que garante algum avanço. Melhor dizendo, os horizontes são preocupantes, são estreitos, injustos para uma maioria, insustentáveis. Tem-se tentado discutir sobre a cidade, mas o ambiente politico miúdo, rasteiro e politiqueiro deixa a maioria das pessoas indignadas, mas sem reagir. Isso é muito pouco para uma cidade que está no limiar entre deixar de ser pequena e se tornar média, que tem a necessidade, já atrasada, de se desenvolver, de ser planejada competentemente para isso.

O ambiente está tenso, reduzido a um imbróglio político, a uma espera de decisão para dizer se um fica ou outro entra. Além desse atraso, muitos moradores não se mostram cidadãos, escondem-se na comodidade, na omissão. Desse grupo de moradores, fazem parte indistintamente pessoas com todos os graus de instrução, trabalhadores, profissionais do direito, da saúde, funcionários da construção civil, professores e administradores da universidade e das faculdades particulares. Falta a todos mais reclamação, mais participação, mais propostas e mais ação. Outro grupo menor, o dos omissos por conveniência, é daqueles que estão se beneficiando enormemente com a riqueza monetária e de patrimônio gerada pelo setor imobiliário. Isso reflete num domínio político atrasado, ultrapassado, cruel, nojento.

Isso é muito pouco, muito ruim para uma cidade como Viçosa. Nossa realidade não deveria condizer com uma cidade universitária, que possui muitos analfabetos; que vive sob os riscos da violência; que não possui atendimento médico minimamente aceitável; que é desigual nas condições de moradia e mobilidade; que não trata seus esgotos, não oferece lazer e cultura de forma democrática, e por aí vai. Temos enormes potenciais e oportunidades não aproveitadas como o conhecimento gerado pelas instituições de nível superior. Estamos numa fase em que cada um cuida de seu umbigo, do seu bolso, do seu projeto de vida. Sem projeto, a cidade, o município, em sua qualidade de vida, vai se deteriorando, à vista de todos, à inanição de muitos, ao enriquecimento de alguns e à revelia de poucos. Viçosa já perdeu muito com a falta de projetos e, como está, vai continuar a perder. É uma lástima.