24 agosto 2009

Pobre Presidente Sarney

Matéria publicada no domingo pelo o jornal O Globo, revela que o Maranhão continua entre os estados mais pobres da Federação. O jornal carioca teve como base a pesquisa produzida pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), que criou o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal, que mede dados de emprego, renda, saúde e educação.

O índice abrange os 5.560 municípios brasileiros, e dos vinte piores, sete estão no Maranhão.

Dentre eles, Presidente Sarney, que não possui saneamento básico, água encanada, emprego, hospital e as escolas que funcionam estão em péssima situação de ensino.

Dos 5.560 municípios brasileiros, ele ocupa a 5.542 posição no IFDM. De todos os presidentes homenageados no Maranhão (Dutra, Juscelino, Vargas e Médici), Sarney é o pior colocado.

Há 25 anos as escolas maranhenses eram barracos de barro cobertos por palha. Pelo que vemos, continua tudo igual.

21 agosto 2009

120.000 por 25,00

Na internet encontra-se à venda um CD com 120.000 projetos arquitetônicos . O custo é R$25,00. Com ele você pode ter projetos de casas e apartamentos sem precisar de arquiteto nem engenheiro.

É possível também, por algumas centenas de reais comprar, pela internet projetos de indústrias de qualquer coisa (laticínios para 5, 10, 20, 50, 100 mil litros de leite, polpa de frutas, abatedouros de frangos, suínos e bovinos etc.)

Eis umas das formas com querem acabar com a profissão do arquiteto.

14 agosto 2009

Leis e salsichas

A Rua Nova e o terreno à direita, local das futuras torres gêmeas













"Leis são como salsichas; é melhor não saber como são feitas".
Otto Von Bismarck (1815-1898)

Mais um caso absurdo de abuso do poder econômico aliado ao político atropelando o meio ambiente e o planejamento urbano. Divulga-se a construção de duas torres de apartamentos em um terreno localizado ao lado da localidade conhecida como Rua Nova. Uma ardilosa estratégia legislativa torna o projeto possível. Uma alteração de texto para mudar uma lei alterou também a lei de zoneamento.

Pela Lei 1420 (Zoneamento e Uso do Solo) original a área do lado do Acamari é uma ZR4 e a do lado da Rua Nova ZR3 - Zona Residencial 3 – que tem como características a predominância de uso residencial e restrição à verticalização, sendo permitido instalar indústrias de até médio porte ou do tipo toleradas. Para efeito de novos parcelamentos, são exigências para os lotes da ZR3 terem área mínima de 360m2 e testada mínima de 12m. O Coeficiente de Aproveitamento máximo de 1,5 (pode-se construir uma vez e meia a área do terreno). A Taxa de Ocupação máxima de 50% (pode-se ocupar a metade do terreno com construção) e a Taxa de Permeabilização mínima de 30% da área do terreno.

A Lei 1848/2007 denominou de Avenida Prefeito Geraldo Eustáquio Reis o trecho entre a Rua Carmita Pacheco e o término do trevo que dá acesso ao Bairro Acamari. Em 2008, a Lei 1865/2008 a substitui esticando a avenida até o trevo de acesso ao bairro Romão dos Reis e a inclui como Corredor Secundário no anexo V da Lei 1420/2000. Isso significa que o que era ZR3, agora como corredor passa a ter como características a predominância de uso comercial e ser área adensável, sendo permitido instalar indústrias de médio porte, não incômodas. O Coeficiente de Aproveitamento máximo passa para 2,8. Sua Taxa de Ocupação máxima de 80% para os dois primeiros pavimentos, desde que para uso comercial e/ou garagem, e de 60% para os demais pavimentos; e a Taxa de Permeabilização mínima de 10% . Por fim, o gabarito máximo das edificações passa a ser de 10 pavimentos.

Há algumas questões a serem respondidas uma vez que tamanha esperteza na aprovação de uma alteração de lei passou a confrontar com o Plano Diretor.

Como é que uma alteração dessa sutileza e de conseqüências danosas ao meio ambiente passou se que o IPLAM, o SAAE, o Complan e o Codema fossem consultados?

Como é que ninguém interessado no meio ambiente e no planejamento viu tamanha aberração?

Como é que, enquanto a revisão do Plano Diretor descansa na Câmara, alguns edis aprovam uma bizarrice dessas?

Quais foram as justificativas para transformar uma área de baixa densidade demográfica em mais um foco de verticalização?

O simples fato de incluir de forma mal-intencionada um nome de via dentro de uma categoria não faz com que o trecho da Avenida adquira as características de um corredor. Imagine o impacto de uma área que passa a poder receber comércio de grande porte, possa ter construído prédios de dez pavimentos e impermeabilizar o solo em uma área que deveria ser preservada como a do manancial mais importante de Viçosa?

Tudo isso para aprovar um projeto de duas torres de apartamentos de dez pavimentos. O IPLAM aguarda parecer de um relatório de impacto ambiental, mas não consulta o insepulto Complan. Cadê a posição do CODEMA? Promotores públicos, quais são as suas opiniões? Cidadãos, o que é que isso tem a ver com vocês? Senhoes vereadores, porque não revogam essa lei?

13 agosto 2009

Colégio de Viçosa: Maquiagem também faz bem

Tombado há dez anos, o Colégio de Viçosa recebeu nesse período apenas uma obra de importância: a reconstrução do telhado. Foi uma obra necessária e urgente, uma vez que o telhado anteriormente existente estava totalmente corroído por cupins e ameaçava ruir e colocar em risco seus usuários. Foi substituído por madeiramento e telhas novas. No mais, vive abarrotado de gambiarras e remendos, e apresenta riscos para quem dele se utiliza. Abriga escolas e secretarias importantes que atraem muita gente. Há anos as administrações municipais vêm tentando timidamente agir para que ele passe a abrigar quase todos os órgãos da administração municipal. Enquanto isso não ocorre, para adaptar ao uso de algumas secretarias, foram feitas várias alterações que contribuíram apenas para descaracterizar, empobrecer e deixar a impressão de descaso, o que parece marca da administração do município. Agora o prefeito acena com algum dinheiro para fazer uma espécie de maquiagem no prédio, inspirada na ampla reforma do antigo CBIA, que está sendo requalificado para abrigar o Parque Tecnológico de Viçosa.

Mais que apenas uma maquiagem, o edifício carece urgentemente de recuperação. O Colégio é um prédio de grande porte, em boas condições estruturais, mas vem sendo utilizado de forma improvisada com divisórias de compensado e suas instalações elétricas e sanitárias estão em péssimas condições. Um aspecto curioso é que o prédio nunca chegou a ter suas obras concluídas visto que os corredores que circundam os pátios internos têm apenas contrapiso, nunca receberam algum tipo de acabamento. Enquanto acontece esse arrastado processo de possibilidade de reformas, em seu entorno foram construídos prédios públicos importantes, como a Polícia Militar e o Fórum. Ali perto, escondido no fundo do vale, o Centro Educacional aguarda, enfim, sua utilização. A região rapidamente recebe novas edificações para fins comerciais, de serviço e residenciais. É uma área que se adensa e se valoriza. Carece ainda de melhorias na urbanização das vias e na implantação do parque municipal, que pode vir a ser uma excelente área verde.

A esperada mudança com a concentração das repartições municipais no prédio do Colégio facilitará a integração dos diferentes setores e economizará muito dinheiro para o município, que gasta uma fortuna todo ano em aluguéis de salas e prédios. Além do um projeto arquitetônico em desenvolvimento pelo IPLAM, que prevê sua utilização plena com as secretarias e espaços culturais, recentemente tem sido anunciada destinação de recursos para obras de recuperação de suas esquadrias e pintura das fachadas externas, do hall de entrada e do amplo auditório. Estão previstas a construção de passeios dentro das normas de acessibilidade e a instalação de iluminação externa. Tais melhorias, ainda longe de garantir a requalificação total do prédio, poderão ser o início para que isso se concretize. Esperamos que os recursos realmente cheguem e sirvam de estímulo para desencadear o processo de requalificação de tão importante bem municipal. Afinal, uma maquiagem não é tudo, mas, bem feita, pode alavancar um processo definitivo de apropriação adequada do patrimônio cultural que é o Colégio de Viçosa recuperado, um sonho de muitos nativos e adotados.

31 julho 2009

Transtornos do trânsito

Infelizmente os transtornos causados pelo trânsito urbano estão amplamente disseminados em muitas cidades. Em Viçosa os problemas se ampliam, devido às características topográficas e das péssimas condições da pavimentação, somadas ao adensamento da área central e ao acréscimo diário de mais automóveis e motocicletas circulando nas mesmas ruas. Com o aumento do número de motociclistas, há aumento de acidentes em conseqüência da pressa, atrevimento e imprudência de muitos deles. Uma vez que são mais ágeis que os automóveis, o trânsito ficou muito mais perigoso, pois exige mais atenção dos pedestres e de quem está ao volante, principalmente quando as motos “se escondem” nos pontos cegos dos automóveis.

A busca de soluções para o conturbado trânsito é assunto cotidiano e o maior desejo é a colocação dos semáforos. Para melhorar a situação, será necessário um conjunto de medidas integradas que envolvem recursos, mudanças de hábito e a necessidade de planejamento.
O uso de semáforos, em princípio, é a solução mais requisitada pela população. Há alguns cruzamentos em que esse tipo de controle poderia ser a solução, como por exemplo: Av. Bueno Brandão com Av. Santa Rita, Rua Padre Serafim com Santa Rita, Av. Castelo Branco (trevo, acesso para a Joaquim Lopes de Farias, chegada na Av. P. Rolfs) etc. Entretanto, o uso do semáforo não resolve todos os problemas e pode causar outros, como interromper a fluidez do trânsito, gerar insegurança durante a madrugada. Sua instalação é cara. Por esses motivos, é preciso um estudo cauteloso antes de sua instalação. Há alguns hábitos a serem quebrados. Há comerciantes que deixam seus veículos estacionados o dia inteiro, tomando vagas, inclusive para seus clientes. Há os que deixam de caminhar 500, 600 metros em troca da comodidade do automóvel particular. Há, muitas vezes com razão, o desinteresse em trocar o veículo particular pelo transporte coletivo.

As ruas são as mesmas há muitas décadas. Com exceção da via alternativa de acesso ao Campus da UFV, via Villa Gianetti, não foram abertas novas vias: ao contrário, algumas foram fechadas. Abrir vias é uma maneira de melhorar o trânsito. Não há muitas alternativas, mas é possível tornar transitável toda a Rua dos Estudantes, incompreensivelmente com uma parte interditada por interesses particulares. É necessário pensar na solução para o gargalo causado pelos muros do Cemitério Dom Viçoso. É possível melhorar a Travessa Purdue. É possível trazer de volta a mão dupla em algumas vias. É preciso eliminar estacionamento ao longo de algumas vias. Há alternativas possíveis como a ligação da Rua dos Estudantes à Avenida Mal. Castelo Branco. É preciso descentralizar o comércio, a prestação de serviços (agências bancárias, escolas) e os futuros prédios para a instalação de órgãos públicos. É possível resgatar o leito do Ribeirão São Bartolomeu com uma proposta viária que atenda simultânea e eficientemente a pedestres, ciclistas e automóveis. É necessário alargar calçadas. Há todo o potencial da linha férrea para destinar uma pista adequada e segura para os ciclistas. Há outras medidas que podem melhorar as condições de trânsito na área central, que devem ser desenvolvidas: a mudança da estação rodoviária de local e a construção das alças viárias, conforme disposto no Plano Diretor de Viçosa.

A cada ano centenas de novos automóveis e motos se somam ao complicado trânsito. Portanto, para que haja melhorias, não basta apenas colocar semáforos. Somente um conjunto planejado de medidas, umas mais simples outras mais complexas, pode ser eficaz.

15 julho 2009

Estádio sim, campo não.

A Copa do Mundo de 2010 está chegando e Copa de 2014 vem trazendo ampla discussão sobre o esporte mais popular do Brasil, uma indiscutível paixão nacional. Volta-se a falar sobre estádios de futebol, um equipamento que não existe na cidade. São apresentados inúmeros belos projetos arquitetônicos de requalificação de estádios (Maracanã, Mineirão, Beira Rio, Salvador) e de novos estádios (Ninho de Pássaro em Pequim; Nelson Mandela, na África do Sul; Manaus e Cuiabá). A prática desportiva encontra na UFV sua melhor estrutura, enquanto que na cidade a situação é precária. Um novo estádio de futebol, com campo, arquibancada, infraestrutura com vestiários, bares, sanitários e cabines para a imprensa, é um equipamento importante e necessário para Viçosa. Vemos alguns torneios regionais sendo disputados sem a participação de nenhum time de Viçosa ou da microrregião. É uma reivindicação legítima feita pela comunidade há alguns anos. A sua construção poderia alavancar um maior desenvolvimento do futebol para a região, como um estímulo à formação e qualificação de atletas, treinadores, preparadores físicos, árbitros, jornalistas do esporte etc.

Tem sido discutida a sua implantação no final da Rua do Pintinho, que é um local totalmente impróprio. Não há estrutura viária suficiente para suportar um trânsito de veículos e ônibus, tanto pela existência de apenas uma via estreita, como pela existência do estrangulamento gerado pelos muros do cemitério D. Viçoso. O acesso para pedestres é de difícil acesso e a declividade da via de acesso é acentuada. A área é insuficiente para abrigar um estádio e o estacionamento. Um estádio de futebol demanda uma estrutura muito além de um vestiário e de um campo de futebol. É uma obra de amplo impacto ambiental e nas vizinhanças. Necessita de um bom projeto arquitetônico (seria motivo até para um concurso público). Para maior viabilização dessa ideia, o estádio deveria estar preparado para receber outras atividades como shows, funcionando como um espaço multiuso que a cidade não tem.

Para Viçosa, seriam adequadas arquibancadas para umas sete a oito mil pessoas, com estacionamento para mil e cem ou mil e quatrocentos automóveis, segundo recomendações da FIFA. A área necessária para estacionamento ocupa a maior parte de um terreno para um estádio. Isso significa que é necessária uma área de pelo menos cinco hectares. Essa área não pode ser subestimada. Não há estrutura urbana viária capaz de absorver tal demanda. Um estádio é uma obra cara, que merece planejamento e muito cuidado, desde estudos de viabilidade, obtenção de recursos financeiros, sua localização, bom projeto, construção com materiais adequados e manutenção. Deverá ser uma obra sustentável financeira e ecologicamente. Deverá atender ao Estatuto de Defesa do Torcedor, às Normas Técnicas Brasileiras relacionadas à acessibilidade e segurança e às normas do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. Não pode ser uma obra eleitoreira nem se tornar um “elefante branco”. Há outros locais, tanto dentro do Campus da UFV como nas imediações do Parque de Exposições (local mais adequado), com área e infraestrutura viária suficientes para abrigar um seguro e confortável estádio de futebol e espaço multiuso de fácil acesso, principalmente com a utilização de transporte coletivo. Esse sonho de muitos em Viçosa pode e deve ser desenvolvido para se tornar realidade e um bom e atrativo empreendimento. É mais um dos potenciais de Viçosa, entre outros que deveria ser concretizado.

22 junho 2009

Morar em apartamento


Morar em apartamentos é o que a grande parcela da população das cidades maiores faz, pois é mais acessível aos bolsos e oferece maior segurança. Entretanto esse modo de vida é um destino cheio de contratempos para muita gente. A convivência entre moradores e com os defeitos nas construções exige paciência. Significa enfrentar problemas quase todo o tempo, mas é principalmente durante a noite, que eles se ampliam, quando o sono é perturbado ou só chega com um exercício de abstração, o que nem sempre é eficaz.



Consegue-se fazer com que os apartamentos fiquem cada vez menores. Os tetos cada vez mais próximos ao chão, as janelas cada vez menores. Salas se conjugam às cozinhas, já conjugadas às áreas de serviço. No mesmo ambiente devem conviver sofá e geladeira, fogão, varal de roupas, sons da TV misturados com o exaustor e da máquina de lavar. Agora com os aparelhos de TV com telas planas, vai dar para estreitar as salas em mais uns trinta centímetros. Nos quartos só cabem os móveis em escala reduzida nas propagandas das imobiliárias, ou aqueles lançamentos de seis portas da mesma largura dos que há alguns anos eram de duas. Banheiros praticamente exigem que entremos de frente e saiamos de ré (ou vice-versa). Para cozinhar é melhor comer fora ou comprar comida pronta. Frituras em casa, nem pensar. Lavar roupas é complicado, mais ainda secá-las. Estacionar em vagas de garagem são desafios cotidianos, com marcas nos pilares e nas latarias dos carros.

Sistemas construtivos convencionais e ineficientes, aliados à economia para obter maiores lucros, juntamente com os hábitos individuais incompatíveis com a vida em sociedade são os maiores vilões. Lajes finas facilitam a propagação dos sons dos passos com aqueles malditos saltos acima de nossas cabeças. Em alguns prédios, chegou-se à tentativa de proibição de andar de salto em casa. Paredes estreitas ou feitas com materiais pouco isolantes facilitam a propagação das vozes e tosses dos vizinhos, além dos infernais secadores de cabelos. Os ruídos dos golpes das descargas de bacias sanitárias chegam de várias direções. Em alguns prédios, ouvem-se os ruídos de chuveiros elétricos, elevadores e o funcionamento dos portões de garagem com aqueles sinalizadores irritantes.

Morar em prédios de apartamentos tem outras armadilhas. Quando se compra não se fala que as janelas são abertas para o oeste e aí seremos encharcados para sempre pelo sol da tarde, ou para o sul, de onde só baterá um solzinho pouquíssimos dias no ano. São-nos apresentadas belas perspectivas como se o prédio fosse o único na cidade e se o futuro prédio fosse construído no meio de áreas verdes maravilhosas. Oferecem-nos uma bela vista, até que no estreito lote vizinho outro prédio toma a sua visão e abre dezenas de janelas bem à sua frente e deixa muito mais gente bem pertinho. Quase dá para apertar as mãos. Dá também para ouvir festas, gritos, conversas, roncos, carinhos e brigas, latidos, assistir aos jogos de futebol, alimentar os hábitos dos voyeurs e sentir cheiro de pipoca, bifes e peixe frito. Perdem-se o a vista e a insolação, o sossego e o humor.

A sociedade moderna cada vez mais aglomera as pessoas e força a convivência. Deve haver maior tolerância no convívio, mas a educação e o respeito deverão sempre prevalecer para o bem de todos os moradores, uma vez que essa tendência não vai parar. O que pode e deve ser melhorado é um conjunto de práticas que passa pelo bom planejamento urbano, como a adoção de afastamentos (recuos frontais e laterais) mais adequados para os prédios e limitação da densidade populacional. A arquitetura deve ser utilizada de forma a garantir adequadas ventilação e insolação, a otimizar espaços sem exigir sacrifícios ergonômicos (considerando que as pessoas não estão diminuindo de tamanho, muito pelo contrário: estão mais altas e mais gordas) e a utilizar materiais isolantes (acústicos e térmicos) mais econômicos e eficazes.

04 junho 2009

O exemplo de Seul

Quando vemos o que foi feito em Seul, capital da Coréia do Sul, há cerca de quatro anos, podemos acreditar que às vezes a capacidade do ser humano ultrapassa a de apenas destruir o ambiente ou de construir monstruosidades de concreto e asfalto. A demolição de um gigantesco viaduto resgatou o leito de um rio e propiciou a criação de um dos mais belos parques lineares urbanos do mundo, frequentável durante o dia e à noite.

Seul, com mais de dez milhões de habitantes, é uma das maiores cidades do mundo. Destaca-se nessa metrópole uma radical e revolucionária obra de revitalização urbana. Construída por cima de um rio poluído, uma antiga via expressa elevada com seis pistas, onde transitavam mais de 160 mil carros por dia, promoveu a deterioração de uma grande área urbana. O Prefeito Lee Myung Bak liderou o projeto para demolir a autopista e recuperar o ribeirão, criando um parque linear com 400 hectares, de 5.800 metros de comprimento por cerca de 80 metros de largura. Abriu-se passagem novamente ao leito natural do ribeirão com suas águas devidamente tratadas e purificadas. Após uma transformação surpreendente, foi entregue à população um espaço de alta qualidade, um bucólico parque urbano que trouxe para sua vizinhança uma série de atrativos como locais de trabalho, lojas, restaurantes e cafés. À noite, a população tem um parque intensamente iluminado e seguro, e pode passear por calçadas, ao lado de anfiteatros, jardins, cascatas e esculturas. Pode-se atravessar o ribeirão por pontes ao nível das ruas laterais ou por caminhos de pedras quase ao nível da água corrente. Muitas pessoas sentam-se às margens para contemplar as águas límpidas.

O prefeito, eleito em 2002, enfrentou forte oposição dos residentes e das pessoas preocupadas com os custos. Mesmo assim, em 2003, iniciou a demolição do elevado e a limpeza do ribeirão Cheonggyecheon. Esse ambicioso projeto ecológico custou cerca de U$350 milhões para reabrir o curso d’água, 44 anos depois de encoberto pelo concreto do desenvolvimento urbano caótico e insustentável, voltado para o automóvel. O carro particular cedeu lugar para o transporte coletivo (que teve projetos de melhoria implementados) e para as pessoas que agora convivem com um cenário inteiramente amistoso e saudável. Os efeitos ambientais da obra foram notáveis, pois um rio possui efeito climatizador natural: aumenta a ventilação e abaixa a temperatura. Descobriu-se que a temperatura nas proximidades do parque caiu em média 3,6 graus Celsius.

O projeto de revitalização urbana em Seul é um exemplo das inúmeras possibilidades do que tecnologia e vontade política são capazes de gerar benefícios para a população e o ambiente. Não custa nada fazer mais um exercício de utopia para Viçosa, que tem seu ribeirão sujo e suas margens invadidas. Viçosa não tem milhões de dólares, mas também não tem autopistas, nem milhões de habitantes. Para termos um parque linear ao longo do São Bartolomeu não é preciso demolir elevados, apenas a mesmice.

01 junho 2009

Ética e custo de projeto arquitetônico

A redução dos valores cobrados pelo projeto arquitetônico tem criado uma série de problemas. A competição coloca profissionais em conflito e provoca uma série de constrangimentos, quando temos que explicar ao ex-futuro-cliente porque cobramos a mais que outros. Na prática, o aviltamento dos valores puxa a qualidade da arquitetura para baixo. Há arquitetos e urbanistas cobrando 1/3 do valor de alguns escritórios, que há anos mantem os mesmos e já baixos valores. Projetos são feitos sem detalhamento, sem o necessário amadurecimento e que serão executados sem sem que sejam acompanhados. Há arquitetos e urbanistas que também têm o titulo de engenheiro civil e sequer cobram pelo projeto arquitetônico. Ou seja, o projeto arquitetônico, sai de graça quando faz parte do pacote com o projetos estrutural e complementares. Ganha-se mais com as comissões da discutível reserva técnica, oriunda da indicação de materiais de acabamento. Tudo isso contribui para a desvalorização da profissão, que além dos profissionais antiéticos, disputa seu mercado de trabalho com engenheiros civis, decoradores, agrimensores, designers ou técnicos em edificação. Cada um desses profissionais deveriam atuar dentro de suas atribuições.